Três poemas de Henrique Segurado

«POST SCRIPTUM»

Por baixo das tílias
Há sombras, raízes.
Se escavarmos mais:
Palácios e casas
E lá mais no fundo:
Cidades, países,
Reis, imperatrizes
E formigas de asas…

Debaixo das tílias
Crescem os jacintos,
Os bicos de lacre
Mais os flamingos.
Debaixo das tílias
Mandam os instintos.
Debaixo das tílias
É sempre domingo!

Lisboa, 22 de Setembro de 1978

***

MINA DE SAL

Meu Pai no grande silêncio
O que ouve desta vez?
Os cedros no meio do vento
E quem sabe? o mar talvez…

Se ele serve de semente,
A quatro palmos do chão,
Quem sabe lá se não sente
O direito à criação…

Mas não sente a Primavera
— Equinócio pontual —
É planta que não gera
Canteiro em mina de sal.

Meu Pai no grande silêncio
Tanta coisa que me diz:
Meu caule de pensamento
O que foi minha raiz!

Lisboa, 11 de Janeiro de 1979

***

ROLETA RUSSA

Nem sequer a explosão
Só um tiro murmurado…
É um espasmo de colchão
No fim dum quarto alugado.

Casino de ocasião
Sem porteiro ou empregado,
Poente de saguão
De suor todo alagado.

A espingarda de pressão,
Que guardamos do passado,
A furar o coração
Dum presente recusado…

Tiro seco: é frustração
De assistente enregelado,
Palpite de ocasião
Por vezes mal apostado…

Uma bala é um senão
Dalgum baralho marcado…
Todo o homem é um leão
A fugir como um veado.

Lisboa, 13 de Novembro de 1979

[in Almocreve das Palavras (Poesia 1969-1989), com desenhos de Rui Sanches, edição do autor, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges