Três poemas de João Luís Barreto Guimarães

PÁSCOA BAIXA

Durante a manhã inteira a barba
ainda cresceu. O vórtice que me picava
ao fim de um dia de trabalho
já o posso adivinhar
neste círculo de flores.
O seu torso é imóvel. Nada
diviso a mover-se (um relâmpago das pálpebras?
o pensamento de um dedo?)
velo a hesitação da barba qual
néscio agarrando tempo.
Durante a manhã de março a
barba ainda cresceu
qualquer coisa dentro dele ainda
não queria morrer.


ULTRAPASSAR A MORTE

Quando menos estás à espera (ao
desfazer uma curva) ela
surge-te pela frente subitamente concreta.
Está lá sempre à tua espera.
A carrinha funerária: barra-te agora o caminho
(caixa de vidro vazia onde nem pensas entrar).
Impossível suborná-la
(guiar de olhos cerrados?)
num átimo a cingirias nesta
fila indiana. Por isso
pedal a fundo desperta da letargia
(as melhores anedotas contam-se nos funerais).
Quando menos estás à espera ela
toca-te na sorte e
(tens que o fazer pelos vivos:) tens
que
ultrapassar a morte.


POEMA

Quem vai do Porto para Leça ao
longo da auto-estrada (divisando
os navios sobre o porto de Leixões)
no fim da ponte à direita vira
para o centro hípico
(serpenteando a avenida tendo
por bombordo o cais)
adiante vê o forte da Senhora das Neves
alguns cem metros à frente começa
a marginal. Daí já se vê o farol
para lá dos prédios brancos –
não é difícil achar lugar para estacionar.
Toca no sexto direito. Estou
sempre por aqui. Ou senão
não venhas hoje.
Faz como te apetecer.

[in A Parte pelo Todo, Quasi, 2009]



Comentários

4 Responses to “Três poemas de João Luís Barreto Guimarães”

  1. Uinco on Maio 8th, 2009 20:13

    é pena a Quasi de Jorge Reis-Sá só editar autores estratégicos, que lhe podem trazer retorno a muitos níveis.

    gostava mais daquilo antes, quando estava lá o valter.

  2. leal maria on Junho 6th, 2009 23:46

    a sério… alguém paga um livro com poesia desta??

  3. leal maria on Junho 6th, 2009 23:50

    Mais estupefacto estou por haver quem o publique! Pois… já vi que com a minha poesia não irei a lado nenhum.
    Na poesia e nas artes plásticas, o que me parece é que é preciso ter lata… apresentar sem pudor algum, lixo como arte! é a minha opinião e vale o que vale!!

    PS: Parabéns pelo blogue… deve dar um trabalhão manter-lo actualizado!

  4. leal maria on Junho 7th, 2009 14:34

    Como sempre impulsivo… mais uma vez fui injusto para com estes poemas (não se apoquentem; sê-lo-ei mais vezes) !! O facto é que, depois de uma leitura menos superficial e apreendendo-lhes as subtilezas… são três belíssimos poemas! Mas eu sou assim; impulsivo! E não peço desculpa!! : )

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges