Três poemas de Luís Quintais

VIII

Houve alguém que encontrou mapas,
esquemas, modelos, a marca d’água

de uma linha na profusão da mente.
Isso, o vestígio que arruinava

a visibilidade de todas as metáforas,
não era uma cidade, antes a selva

crepuscular que, sedutora, nos envolve
quando queremos morrer.

E não quererás tu morrer
quando desapareces na ininteligível

exposição metafórica do mundo?
A carne das coisas tem

um brilho de cristal, mas esse
brilho engana, é o efeito apenas

de uma luz sem origem, a luz
do desespero. Tudo o que pode salvar,

se é ainda legítima a decisão
que está aí, no traço que, espesso,

reclama a impressiva nostalgia
daqueles que se atribuíam ao infortúnio

numa encruzilhada de gratificações,
de frutos amargos e de poesia,

tudo o que pode salvar
é um eco do que salva.

Tudo o que podemos amar
é um eco desse eco,

o drama dos espelhos outra vez.

***

XIV

Lenta passagem, evocação de uma cidade:
o que te esclarece é o movimento do braço,

o gesto que nada diz arrasta somente
a memória e o seu peso, e reúne depois

novas ciladas, e faz ecoar a morte da cidade,
a linha que percorre o exterior perímetro

e cujo tema é a destruição do sentido.
Uma descrição do que não teve lugar ocorre aí,

uma descrição dobrada pelo ilegível
que a devora.

Tudo é baldio. As vozes antigas – sim, os antepassados –
já não são esperadas, permanecem tapadas pela aflição escura.

Move o braço,
o voo começará onde não houver sentido.

***

XVI

Tudo são máquinas, a luciferina intenção
de cortar, pela janela, o desenho interrompido,

ou então, tudo são máquinas ainda, quando
a boca se desenha presa às palavras

enunciadas desde o começo da biografia
(que biografia, se só haverá farrapos?):

fantasmas enunciando-se à pressa
e que a cidade reúne nos muros que a não cingem já.

Tudo são máquinas prestes a incendiar mapas,
a eliminar traços, a apagar vestígios.

«Começará o mundo depois do mundo acabado»,
escreveste no caderno.

É de lixo lírico, a paisagem, humano resíduo.
As máquinas que escrevem, escrevem na pele.

Tudo são máquinas. O mundo irá começar
dentro de momentos, prepara-te.

[in Riscava a palavra dor no quadro negro, Cotovia, 2010]



Comentários

One Response to “Três poemas de Luís Quintais”

  1. cduxa on Maio 29th, 2010 20:04

    “mas esse
    brilho engana, é o efeito apenas

    de uma luz sem origem, a luz
    do desespero.”

    Adoro quando encontro alguém que traduz sentimentos em palavras (desta qualidade).

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges