Três poemas de Maria Andresen

SOBRE UM FILME DE JOÃO CÉSAR

Mais tarde naquela praia estaria, vindo do mar
um pária

por agora – contra o mar, a ânfora,
a tua ânsia
a recusa dela
Senhora, ofereça-me o seu frágil passo
em falso
o pé da rosa
o pé de salsa
porque eu sei dos peixes
do fio de sangue no mármore da banca
eu sei dos pássaros e do voo que levantam
junto ao cais
eu sei do amanhado anho – Eu sou

e persistia ela: como Eu sou, Eu sou, e estou
outro modo não sei: vestal do sol

e Eu: que lugar frágil, vulnerável foi o seu, assim se vê agora
«Les rois ne touchent pas aux portes», escreveu Ponge
desconhecem o prazer de as tomar nos braços

***

PAISAGEM SIBERIANA COM COMBOIO E BÉTULAS AO FUNDO

Agora o comboio arfa
porque ele cambaleia e tropeça
de obstinação e pressa

bate em meu ouvido à razão do passo
da batida

há uma planície de bruma debruada
por uma branca
floresta de bétulas, ao fundo

imaginamo-las cogitando: o comboio é
uma obstinação que passa
uma febre cobrada por olhos parasitas

um homem passa a cavalo como um ogro
a sua estatura é do tamanho

do que não encontra
se bem que não o diga

***

NUMA NOITE DE AGOSTO SOBRE A RIA DO ALVOR
(à Elizabeth Enders e à Lena Abreu)

Gritam grilos na noite serrilhada, cosidos a ela
como lantejoulas

gritam grilos como as estrelas
no infinito imaginado:

a invisibilidade dos números
faz os brilhos

um gato passa no seu passo lento e fino
um gato temerário que me fita

um comboio corta a noite correndo
pelo som que faz
o romper do ar que há na sua voz
na sua voz

Velocidade é tempo e o comboio é a sua
mais perfeita imagem

– tudo o que corre ocorre no sentido inverso
à marcha do comboio

no sentido inverso à terra, ao seu relógio,
pois que a velocidade é tempo e o comboio

é dela a mais perfeita imagem
Os comboios que eu amo não sabem de onde vêm

perdem-se na noite e refocilam como portentosos sonhos
e pelos campos espalham uma quimérica limalha

dispersam-na e refocilam, portentosos bisontes
pois que algo no comboio livremente o toma

como as obstinações, a febre
e porque é febre a pressa que o acirra

[in Lugares, 3, Relógio d’Água, 2010]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges