Três poemas de Miguel-Manso

MAREÓGRAFO

a folhagem
agita-se sobre os bastidores
deste texto

leio:
“quem passa o cabo Maleia abandona a pátria”
na esplanada do Príncipe Real a copa
oferece uma folha à mesa onde reúno ruína e Agosto
reorganizo a rota o plano de voos

belas são as rosas deste mês quente nas bermas
em todos os quintais das casas
na estrada para Góis
sobrevivem ao tráfego violento
dos motards

vejo-as excessivas junto ao lago do Jardim da Estrela
quando corro para o eléctrico que tardará como tu
nesta holocénica época da minha espera

dentro da noite

tomo nota de dispersas canções em guardanapos
palavras estrangeiras o comércio dos olhares
a água doce dos gestos o latido de um cão

Lisboa caminha em geral para o Oriente Próximo
do Outono

na mesa atrás alguém nomeia os sábios do Séc. XVI
esses que considerariam escandaloso o erotismo sonoro
da palavra Macintosh

leio hora a hora o desenho dos polígrafos
meço marés com o rigor nefelibata dos amantes
espalho na superfície interior dos lugares
barómetros, barógrafos, anemómetros

insisto em espiar o gelo da Antárctida
mas a vida segue o seu ciclo desmedido
na completa ignorância deste poema


CANÇÃO DO DIA 1 DE SETEMBRO

o jornalista
repara no mar que ali
se faz contra tudo (conta
tudo)

documento
reaberto não sei em que linha
texto em cima do

joelho apontado ao mar

ela diz: estou mesmo infeliz desde aqui

quem se lembraria de escurecer agora
que todos os risos explodem dentro dele
ela entorna o galão no jornal de sábado
felizmente nas páginas que já leu

no Jardim da Parada
o template do telemóvel mudou
para o desenho e cores do Outono
é dia 1 de Setembro

(uma manhã estranha como Camilo Pessanha)

repara na forma desajustada deste
poema cheio de adjectivação
impublicável calenda
sobre a qual os pássaros
ainda teimam alheios ao YouTube

ela recuou em transumância ao mês passado
para fumar outra vez contra o

grande
silêncio entrecortado pelo
bater do sino

o sinal horário
devolveu-lhe a clara substância pura
do sol de Agosto

dando no renque seco

dos carvalhos
pés sobre a terra
mãos aproximando-se do princípio
celestial das

roseiras

DESDE ARTAUD: UM E-MAIL

à décima noite em Paris
sonhei que viajava enfim para
Paris

chove
a noite entra na casa
na mesa de trabalho dois copos vazios de Suze
à frente de um poster de Artaud que demorei a
decifrar

à direita
um desproporcionado mapa-mundo onde
quase só há oceano (custar-te-ia crer também
no intricado jogo de palavras de um cartaz
na parede do lado esquerdo)

a imaginação
pode ser fatal
lembro a primeira frase de Os passos em volta
onde

querendo
se enlouquece

a estranha posição de um homem fotografado junto à
Torre de Saint-Jacques que se apresenta há muito
tapada em lento trabalho de restauro

há uma baleia perdida
subindo o rio Amazonas em direcção a quê

uma multidão em Bagdad rising from the
typewriter of William S. Burroughs

é tarde
a noite tomou esta sala de silêncio como se
fosse crude devagar pelo casco de um navio
no fundo do mar

escrevo-te desde Artaud até à saudosa
casa nos arredores de Amesterdão onde terás chegado hoje
uma casa que conheces bem onde sabes o lugar
dos pratos dos talheres a tonalidade

das estações nas janelas

a casa já não é tua mas
reconheces o conforto dos sofás
o prazer antigo de estar na sala
o avançar tímido da luz no soalho

como dizia
sonhei que viajava enfim
para Paris

falo de um tempo de espera
de um delay entre a matéria e a consciência
o éter o tempo em que vão cair as pétalas a

todas as palavras a
todas as palavras
a todas as
palavras

[in Contra a Manhã Burra, Mariposa Azual, 2009]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges