Três poemas de Miguel-Manso

POEMETO

O paradoxo de fermi
a hipótese da terra rara
o poeta trabalha com o que tem

um muro com hortênsias
ao fim da tarde um punhado de
estrelas sobre a baía

ainda assim
a poesia é aquilo que neste
desalinho todo se apresenta

tão exacto como a morte

CADERNO DO PORTO VELHO

escrevo o espaço que vai das
tuas mãos ao renque de alfazemas
sombra aprendida em aromáticos versos

desconheço ainda esta cidade
depois de tantos anos
mas aprecio

pela tarde o lento rir das áleas
avenidas de timbre meridional
casas onde ainda se pode descascar a fruta

atirar a casca para um alguidar partido
e onde na trégua do calor maior as crianças costeiras
tomam o alcatrão das ruas a areia das praias

rompem este silêncio de vagar portuário
de palavras como ruína que envolvem
o sentido do que escrevo

as tuas mãos ou o espaço que vai das
tuas mãos ao renque de alfazemas


O PREC EM 2008

o deus Silêncio ostenta as Inumeráveis
águas nesta apertada livraria de Lisboa
também ainda o primeiro título (poesia) de Manuel
António Pina em ano de revolução que

nesse tempo eram mesmo
a sério as revoluções e podíamos acrescentar-lhes pela rua
o nosso carme as madrugadas flores

agora um amigo diz-me: “esta
revolução não dá um passo!”

concedo, mas não desisto

incorro em certos delicados actos de guerrilha
por exemplo deixo poemas em cafés ou em pequenas
livrarias que ainda apoiam em segredo esta causa

revolucionária
depois mando as coordenadas sigilosas à amada
que no dia seguinte quase sempre
pela tarde os vai buscar

[in Quando escreve descalça-se, Trama, 2008]



Comentários

One Response to “Três poemas de Miguel-Manso”

  1. miguel loureiro on Dezembro 10th, 2008 23:36

    lovely

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges