Três poemas de Nuno Dempster

PARTÉNON ILUMINADO

I take you a photo, disse-me ela
uma noite de Agosto
no terraço do
Athens Center,
quando me viu guardar o templo
cheio de luz
numa
Canon barata.
Era uma prostituta de hotel
e já livrava os homens do seu peso
na era da casta Atena,
entre os blocos de Fídias
ou à noite, em enxergas miseráveis.


EM ARQUÀ

Na casa de Petrarca, Safo escrevia
e depois atirou-se
do cimo de uma penha,
e Vénus e Cupido
jogavam o seu jogo com Vulcano.
Tudo isto sobre o lume a que Francesco
de velho se aquecia,
os dedos estendidos para as brasas,
Laura ida havia muito, nunca tida.


PARTIDA DE XADREZ COM IVAN JUNQUEIRA

Disseste a um jornal é absurdo morrer,
irmo-nos sem um deus, mas não sei outro modo
de viver e morrer; e também lhes dizias
um poente não é poente sem poesia.
Todavia, assentemos, é o sol que se esconde,
ou melhor, o rodar contínuo do planeta,
e por rodar assim é que nós respiramos,
a luz nos ilumina e partimos sozinhos.
Mas isso é já sabido antes do
eppur si muove,
e neste tabuleiro onde jogo contigo
os meus peões e bispos os deuses inventados
há muito o xeque-mate nos destinavam, cínicos.
E quando começamos o jogo, pensativos,
quando me falaste é absurdo morrer só,
jamais nos ocorreu, para assim não morrermos,
nos bastava a alegria de um dia termos sido
altivos e distantes das mesas de xadrez.

[in Dispersão – Poesia Reunida, Edições Sempre-Em-Pé, 2008]



Comentários

2 Responses to “Três poemas de Nuno Dempster”

  1. amelia on Fevereiro 11th, 2009 0:11

    Um bel+íssimo livro, na verdade -nestes e nos restantes poemas que o integram.

  2. l. nunes on Maio 10th, 2009 19:25

    E quando começamos o jogo, pensativos,
    quando me falaste é absurdo morrer só,
    jamais nos ocorreu, para assim não morrermos,

    tem um erro no poema, seria: quando começámos

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges