Três poemas de Nuno Júdice
CEIFA
Nos grandes arrozais do sul, as nuvens
de mosquitos escondem o céu. As mulheres
cuja sombra se afunda nos charcos,
quando a tarde cai, enlouquecem
devagar e cantam. Mas os mosquitos voam
à sua volta, e elas batem as mãos como
se fossem leques para se libertarem
dos mosquitos e das sombras, e
escorregam no lodo, enquanto os homens
lhes gritam, da margem, que o arroz
continua por colher. Então, a procissão
das mulheres sai de dentro do pântano, e
os homens caem à sua frente, como
se elas trouxessem nos olhos
a foice que decepa os campos e as vidas,
num fim de tarde em que os mosquitos,
com a sua nuvem de sombra, taparam o céu.
***
NOITE DE TEMPORAL
Pouco importa. As chuvas devastam
o litoral, e os pescadores procuram os barcos
que as enchentes levaram. Um deles gritou
que o levassem para o cimo do monte; e quando ali
chegou ergueu um peixe sobre os ombros, como
se o ar e a água se confundissem
no cimo. Eu estava sentado no banco da única taberna,
e ouvia as mulheres que rezavam; ou talvez não fosse
nenhuma reza: seria, apenas, um ranger
de dentes sobre a ausência dos deuses. Por outro
lado, quando elas me vinham perguntar o que queria,
pedia-lhes um fundo de aguardente no copo da noite. E elas
despejavam-me a garrafa para que a bebesse, até
à última gota. Por fim, saí sem nada que me abrigasse; e
o relâmpago iluminou a baía, os corpos deitados
sob as colunas da praça, e os cães que ladravam
sem que ninguém soubesse porquê.
***
O EFEITO DO CINEMA NA CABEÇA DE QUEM NÃO VAI AO CINEMA
A jean seberg vendia o herald tribune nos filmes
de godard, e eu procurava troco na carteira
para lhe comprar o jornal. Ela dizia-me que
não era preciso dar troco, e eu dava-lhe uma nota
para ela me dar o jornal, e era como se já
o tivesse lido nos seus olhos. A jean seberg
tinha cortado o cabelo para aparecer nos filmes
de godard como um efebo, e quando eu lhe comprava
o jornal era como se ela me dissesse que estava
a comprar uma ambiguidade de sexos, que
não vinha na primeira página do jornal, mas
que eu podia ler nos seus lábios quando ela
me pedia que não lhe desse troco, e eu me limitava
a dar-lhe uma nota para não ter de andar mais tempo
à procura de moedas, o que me impedia de
olhar para os seus olhos onde podia ler a
previsão meteorológica para o próximo milénio,
como se jean seberg fosse o céu sem estações
e no seu rosto se fixasse a eternidade de uma
beleza sem princípio nem fim. Mas isso era
quando a jean seberg aparecia nos filmes do godard,
e quando deixou de aparecer o tempo voltou
ao seu ritmo normal, o herald tribune deixou
de me interessar, e já não precisava de procurar
trocos para comprar jornais que nunca iria ler,
porque o que eu queria ler estava nos olhos
de jean seberg, e eles tinham-se apagado.
[in Guia de Conceitos Básicos, Dom Quixote, 2010]
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