Três poemas de Rosa Alice Branco

STREEPTEASE (CARTAGENA)

Cidades deitadas umas sobre as outras.
O peso pode ser insuportável. Comemos relva
do dia sobre as camadas que se vão despindo
lentamente, a malha urbana dos cinco apelos
para a prece, e cinco sob os cinco de outra era.
Mais abaixo escavam agora gritos lancinantes
mesmo ao centro do anfiteatro romano.
Animais carnívoros perfuram o solo
até às raízes. Tenho de respirar
um pouco nos teus olhos e acreditar que podes despir-me
de verdade soterrada há tantos séculos sob a arena.
Foi aqui que os leões nos lamberam as feridas
mas ninguém bateu palmas.
Só batiam os pés no chão em algazarra
para que os devorássemos. Mas somos
palhaços herbívoros e mesmo a erva
dói a entrar no coração.

***

SEU A SEU DONO

A pele espera nas coisas a carícia do uso
como o cão anseia pelo dono.
O bordo do copo, os dentes do garfo.
Usurpar os lábios entreabertos
com a alma útil e desinteressada.
Um gole de. Faz-se tarde.
O vinho faz esquecer a pele do corpo.
Porque tocar (pensa ela)
é uma confidência nocturna.
Lá fora as flores. As sebes.
O ressumar de amantes no cálice.
Toco-te com mãos alheias:
eis toda a confidência de que sou capaz.
Um vestido de seda a abrir na minha perna:
um osso para te fazer correr:
um ganido de amor à porta do prédio.

***

SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES

No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim.

[in Gado do Senhor, &Etc, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges