Três poemas de Rui Miguel Ribeiro
ROSE, GOLD, LANDSCAPE OR ANOTHER*
Podemos sempre falar em depois.
A rosa artificial que me antecedeu
permanece indiferente com as
suas manchas de ouro, voltada
sobre a imagem da cidade.
Tantas foram as já nomeadas,
mas esta também tem a sua virtude,
espinhos de plástico que simulam
o atrito de viver que são estes dias.
Duração resistente ao tempo,
ao apetite e ao sol que a cobre
pela mesma indiferença.
Na fronteira de ser, a sua sombra
tem mais vida e quase chega até mim.
Rosa, ouro e olhar, desperta
na sua duplicidade o desejo
e a plenitude de amar,
contra o vidro que me separa.
* Verso de Stephen Spender
O FRUTO
Registam a febre e o coração.
Neste fim de março em que
não vejo árvores de fruto,
chegam-me as novas da minha
nespereira, pejada, dizem-me.
À espera, como o meu sangue,
de que a vida seja uma protecção
adocicada, carnuda e macia,
pronta a colher.
A TARDE
Nesta desaceleração
espero que os dias corram iguais,
uniformes e sem resistência.
Procuro de cada mistério
entender o mais simples.
Fico pelo que é mais rente,
mais sólido, com menos construção.
Já não chega ter os horários,
as entregas e as rotinas,
para aceitar o ritmo de furo lento
da vida. Mais próximo cresce o detalhe.
É mais precisa a dúvida.
Cai a tarde e a pausa continua
e com ela expira o natural desejo
de um prazer, um apetite pela
diagonal de luz que vai dividindo
o espaço, a marca invisível
que fica de mais um dia.
[in XX Dias, Averno, 2009]
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Pena que tenham sido essas as circunstâncias que formaram o estado de espírito donde germinou estas belas palavras. Há poemas assim paradoxais: a tomada de consciência da nossa efemeridade impregnando o poema de intemporalidade…