Três poemas musicais de Manuel de Freitas

GUSTAV LEONHARDT, 2005

Às vezes, por breves instantes,
a beleza habita sobre a terra,
tão urgente e impronunciável
como o rosto em
trompe l’oeil
na abóbada da igreja de São Roque.

Com isto, estarei talvez a fazer
a mesma triste figura da rapariga espanhola
que ao meu lado rabiscava poemas
dialécticos – «Argumentos» e Contra-
Argumentos» velozmente incinerados
pela fundamentação física do génio.
Nós, poetas, só escrevemos disparates.

A beleza, dizia eu. Mas os meus pés,
o seu indiscutível peso sobre a terra,
coincidiam com o mármore da sepultura
número 44 (dois terços de paixão, outro de pó).

E aquele homem ajudava-nos a morrer
melhor.



LEONARD COHEN, 1979

Era bem claro, nessa noite,
o quanto a sua música
se afastava de «other forms
of boredom advertised as poetry»,
denúncia que se mantém válida.

Não serão bússolas duradouras
– tudo, enfim, falece –,
mas são palavras que nos protegem
da avalanche dos dias e dos meses,
destas poucas horas a que chamamos nossas.

Uma maneira de voltar a morrer?
Talvez,
quando até nas cinzas encontramos lume.



PINA BAUSCH, 2008

Müller,
Café Müller.

A morte sabe onde fica.

[in Jukebox 2, de Manuel de Freitas, Colecção Poesia Portuguesa Contemporânea, Teatro de Vila Real, 2008]



Comentários

One Response to “Três poemas musicais de Manuel de Freitas”

  1. Eduardo Serra Lopes on Novembro 6th, 2008 11:42

    mt bons mesmo.

    vou usá-los, se me der licença, daqui a uns dias na Casa dos Poetas.

    um abraço, colega.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges