Três sílabas de plástico

ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Alexandre O’Neill

A primeira letra foi descoberta no Algarve, por um turista italiano. Ao fotografar dois muros de pedra em ângulo agudo, nos arredores de São Brás de Alportel, pensou que estava ali um curioso V, mas depois descobriu outros dois valados paralelos, com vinte quilómetros de comprimento, e percebeu que se tratava antes de um imenso M. A notícia saiu na imprensa regional, num canto da página das curiosidades.
A segunda letra foi um H. Custódio Antunes manobrava o seu balão de ar quente, perto de Gouveia, quando se apercebeu das linhas muito direitas, três rasgões amarelados no verde denso da floresta. O vídeo gravado com o telemóvel, em que aparecia o dedo trémulo de Custódio e a sua voz a exclamar «É mesmo um H! Vede bem, minha gente, é mesmo um H!», teve um sucesso imediato no YouTube, mais por causa do sotaque cómico do que por outra razão qualquer.
A terceira letra, um D, surgiu da noite para o dia numa seara alentejana, para os lados da Vidigueira. Os telejornais da hora do almoço fizeram reportagens em directo, captando a perplexidade dos agricultores da zona e forçando comparações com os famosos círculos que tanta tinta fizeram correr há uns anos. Quem é que desenhara o gigantesco D no trigo? Com que objectivo? Seria uma campanha publicitária? Uma instalação artística? No estúdio, o pivot fez uma piadinha e piscou o olho, antes de se despedir.
A quarta letra, um A, foi avistada no concelho de Vila Pouca de Aguiar pelo piloto de um helicóptero do INEM. A quinta, um N, detectaram-na os topógrafos que andavam a fazer o levantamento de uma estrada secundária, entre duas freguesias de Proença-a-Nova. Quando um estudante do Instituto Superior Técnico identificou a sexta letra, outro N, junto a Tabuaço, depois de uma semana inteira a analisar em detalhe imagens do Google Earth, uma febre apoderou-se do país.
Dos programas de debate na TV aos editoriais dos diários de referência, do Facebook à blogosfera, dos transportes públicos aos cafés de bairro, não se falava de outra coisa. Havia uma frase por decifrar no corpo da nação, uma tatuagem inscrita na pele da paisagem, uma escrita dos deuses que talvez explicasse finalmente o que somos, de onde vimos, para onde vamos.
Temendo quebras de produtividade, o governo nomeou com carácter de urgência uma comissão de especialistas. Em boa hora, diga-se, porque nunca uma comissão em Portugal foi tão eficiente. Dois dias depois, a sobreposição de imagens de satélite actualizadas desvendou num ápice o mistério. Na imagem que circulou por todo o mundo, podia ler-se, na vertical, do Algarve a Trás-os-Montes, em letras quilométricas: MADE IN CHINA.

[in The Printed Blog Portugal, n.º 2, Setembro de 2011]



Comentários

3 Responses to “Três sílabas de plástico”

  1. João Pedro da Costa on Setembro 22nd, 2011 11:06

    Belo texto, caramba. E cheio de energia cinética.

  2. José Mário Silva on Setembro 22nd, 2011 12:32

    Obrigado, JPC. Era mesmo essa a ideia. :)

  3. Francisco Jorge on Setembro 25th, 2011 7:35

    José M. Silva, desculpa o M.
    É só para me confessar rendido à tua concisão, simplicidade, sinceridade, como dizer mais? Este último texto é lindo e angustiante.
    Sábado, estive no jardim dos livros. Levei dez dos meus, trouxe um “testamento” literário de Vitaly Margulis, pianista ucraniano falecido em Los Angeles no Maio de 2011, aos 83 anos.
    Rendo-me ao teu génio literário e organizativo, desejo-te felicidade e “a paz do tempo” que não deixamos animar o nosso espírito…
    Francisco Jorge, do coro Lopes-Graça da antes tua vizinha Celeste Amorim, amigo ao dispor para o que for capaz…

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges