Três vidas

marie_ndiaye

Abençoada Internet. Há uns anos, encomendar um livro francês recente nas livrarias portuguesas era coisa para semanas. Hoje, é questão de dias. Assim que foi anunciado o Prémio Goncourt 2009, a 2 de Novembro, fiz a encomenda numa das maiores livrarias online do mundo. Menos de 48 horas depois, entregavam-me em casa um exemplar de Trois Femmes Puissantes (Gallimard, 317 págs.), o romance de Marie NDiaye que começou por conquistar a crítica literária, sendo mesmo apontado como o «acontecimento» da rentrée editorial deste ano, para depois convencer à primeira volta – por maioria dos votos (cinco em oito) – o júri da Academia Goncourt, de que fazem parte Michel Tournier, Jorge Semprun, Tahar Ben Jelloun e Bernard Pivot, entre outros.
Nascida em Pithiviers, no departamento de Loiret, em 1967, de mãe francesa e pai senegalês, NDiaye foi uma autora precoce. O seu primeiro romance (Quant au riche avenir), escrito aos 17 anos, foi descoberto e publicado por Jérôme Lindon, responsável pelas Éditions de Minuit. Aos 42 anos, esta mulher que estudou Linguística na Sorbonne e vive em Berlim desde 2007 (saiu logo após a eleição do Presidente Sarkozy), mulher inteligente e «poderosa», para usar o adjectivo que caracteriza as suas mais recentes personagens femininas, conta na sua bibliografia com dez romances, um livro de contos e quatro peças de teatro – uma das quais, Papa doit manger, integra o repertório da Comédie Française.
O facto de NDiaye ser a primeira mulher negra a vencer o Goncourt poderia sugerir uma decisão politicamente correcta por parte do júri, mas a leitura de Trois Femmes Puissantes afasta de imediato essa suspeita. Se venceu o Goncourt, é porque se trata de um belíssimo romance, estruturalmente sólido, com uma extraordinária caracterização psicológica das personagens e um trabalho sobre a linguagem de um requinte raro na literatura francesa contemporânea. Esqueçam os dramas urbanos de burgueses entediados e prisioneiros de uma certa aridez formal pós-Nouveau Roman. Aqui é a realidade que pulsa e magoa, enquanto somos forçados a tocar as arestas do quotidiano e entramos na cabeça das personagens como no anfiteatro do mundo. Composto por relatos autónomos, subtilmente interligados, o livro assenta em três pilares: Norah (advogada que regressa ao Senegal a pedido do pai, para defender o irmão preso e aprender a lutar contra o caos que invade a sua vida); Fanta (uma emigrante desenraízada, cujo perfil emerge do labirinto mental do marido); e Khady Demba (símbolo trágico e melancólico dos muitos africanos que morrem todos os anos na tentativa de chegar à mirífica Europa).
Muito antes do frenesim mediático que o Goncourt está a gerar em torno de Trois Femmes Puissantes, Carlos da Veiga Ferreira, editor da Teorema, já tinha comprado o livro para Portugal. «Eu passo, todos os anos, três semanas de férias na ilha Graciosa e uma em Paris, no final de Agosto, em contactos com editoras. Desta vez, estive na Gallimard, onde me sugeriram o romance da Marie NDiaye. Li-o logo e fiquei fascinado.» Veiga Ferreira, que já em 2008 acertara em cheio, ao adquirir os direitos de Syngué Sabour: Pierre de Patience, do escritor franco-afegão Atiq Rahimi, antes de ele vencer o Goncourt, destaca em NDiaye a mestria narrativa e, sobretudo, «a escrita fortíssima».
Entregue o texto a um tradutor da sua máxima confiança (Carlos Correia Monteiro de Oliveira), o editor da Teorema conta lançar o livro em Abril de 2010, dois meses antes de uma ainda não confirmada vinda a Lisboa de Marie NDiaye, a convite da Fundação Gulbenkian.

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



Comentários

2 Responses to “Três vidas”

  1. maradona on Novembro 16th, 2009 21:27

    “Aqui é a realidade que pulsa e magoa” eh pá, é tal é qual como quando eu ouvi que o carlos carvalhas era o novo treinador do sporting! “pulsa” e “magoa”!, isso isso, espectáculo!

  2. zé m on Novembro 17th, 2009 18:35

    aconselho o teatro da NDiaye. conheci há cinco anos e serviu-me de muito. um abraço de berkeley

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges