Tresli… e até nem desgostei!

«Talvez influenciado pela releitura de Austerlitz, senti-me impelido a ir ver a campa do meu irmão. Há duas semanas, o número de carros estacionados e de familiares que vi em silencioso recolhimento por entre as campas, à medida que subia para o Cabeço do Senhor do Mundo, como se me elevasse numa vertigem acima do patchwork fúnebre das campas estampadas na terra argilosa, achei melhor adiar para uma oportunidade mais íntima essa visita que fui esquecendo, à medida que me esforçava por esquecer Mortágua.
Agora, que me lembro, não sei se além das sucessivas peregrinações de Austerlitz, que Sebald ilustra com fotografias de cemitérios onde o tempo parece ausente, não sei até que ponto não terá também contribuído a oferta, quando estava sentado à porta do café, de um saco de pano cru com uma monografia do concelho de Mortágua e o catálogo de uma exposição de fotografias – não devem constar todas –, não sei, dizia, até que ponto não foram as pulsões despertadas pelas duas leituras, Austerlitz e o catálogo, que me impeliram a ir “ver o meu irmão”.
Leio que faria cinquenta e sete anos na quarta-feira, dia nove de Julho de dois mil e oito, leio junto da pedra tumular e vejo-o olhar não sei para “onde”, com uma expressão que, se quiser, posso interpretar como um rictus conformado, a olhar de mãos nos bolsos para o que ali ficou a ver no lado esquerdo da fotografia enquanto ela durar.
Assim que transpus o portão, rematado pela pequena caveira com dois fémures infantis cruzados sobre o ponto onde os dois portões de ferro se fecham, que só me lembro de ver um sempre aberto, quando não abertos de par em par, e depois de descer o degrau e entrar no cemitério onde, até à morte do meu irmão, só havia a sepultura da minha avó que morreu quatro meses antes de eu nascer, não pude deixar de reparar que a maior parte das fotografias das campas são fotos tipo passe, fotos de arquivo, como se deambulasse por uma biblioteca muda.
Exceptuando a perturbadora expressão do meu irmão, de que já não me lembrava, não vi em nenhuma campa uma foto onde palpitasse outra vida para além da identificação oficial do defunto, estática, arquivada; só notei a falta da pancada forte que lhes imprime a mordedura de um selo (em) branco.
Uma marca de água.»

[Jorge Fallorca, Blues para uma puta velha; &Etc, Lisboa, 2010]

Selecção de José Mário Silva



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges