Tudo é literatura

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O Jogo do Mundo (Rayuela)
Autor: Julio Cortázar
Título original: Rayuela
Tradução: Alberto Simões
Editora: Cavalo de Ferro
N.º de páginas: 631
ISBN: 978-989-623-079-1
Ano de publicação: 2008

Obra-prima de Julio Cortázar, Rayuela é uma das narrativas que mais influenciaram os escritores latino-americanos da segunda metade do século XX. Que só agora seja publicada em Portugal, com 45 anos de atraso, diz bem da indiferença a que foi votada no nosso país, durante muito tempo, alguma da melhor literatura estrangeira. Saúde-se então a Cavalo de Ferro pela iniciativa de suprir esta imperdoável lacuna, ainda por cima numa magnífica tradução de Alberto Simões, que resgata quase sem mácula a força poética, o fôlego e a cadência da prosa torrencial do escritor argentino. Eis, desde já, a par de O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil (Dom Quixote), um forte candidato a livro do ano.
O enorme impacto de Rayuela (à letra, o infantil “jogo da macaca”, desenhado no chão com giz; imagem recorrente em vários dos planos narrativos) deveu-se sobretudo ao seu experimentalismo formal. Como se diz logo de início numa “tábua de orientação”, o livro “é muitos livros”, na medida em que a ordem pela qual devem ser lidos os seus 155 capítulos depende apenas da vontade (ou dos caprichos) do leitor. Cortázar sugere duas escolhas possíveis: 1) começar no primeiro capítulo e acabar no 56, seguindo o esquema habitual, o que implica prescindir do último terço do livro; 2) ler a obra na íntegra, mas seguindo uma sequência irregular de capítulos: 73, 1, 2, 116, 3, 84, etc. Na verdade, qualquer ordem é válida (mesmo a leitura de trás para a frente), o que multiplica as abordagens possíveis a esta ficção aberta.
Dito isto, há três núcleos principais a que os fragmentos narrativos se agregam. Na primeira parte, ‘Do lado de lá’, acompanhamos a vida do argentino Horacio Oliveira em Paris, onde se apaixona por uma uruguaia (Maga), discute interminavelmente com um grupo de amigos artistas (O Clube da Serpente) e encontra, por mero acaso, o seu escritor-guru (Morelli). Na segunda parte, ‘Do lado de cá’, Horacio regressa a Buenos Aires, reencontrando um velho amigo (Traveler, que se revela uma espécie de duplo), a mulher deste (Talita, na qual projecta a memória de Maga) e uma galeria de personagens secundárias, com as quais se cruza primeiro num circo e depois num manicómio. Por fim, a terceira parte, ‘De outros lados’, compõe-se de 99 “capítulos prescindíveis”, onde cabe tudo e mais alguma coisa: citações de pensadores e poetas, notícias de jornal, notas do acervo de Morelli, pequenos ensaios, aforismos ou episódios soltos que ajudam a esclarecer certos factos e a definir traços psicológicos.
No fundo, não há nada que o livro enjeite, na sua ânsia de absorver, por exemplo, a cidade de Paris – esse novelo de “matéria infinita enrolando-se sobre si mesma”, logo transformada numa “enorme metáfora”. Como diz alguém: “Tudo é literatura, isto é, fábula.” À semelhança de Morelli, que sonha escrever uma obra “onde o micro e o macrocosmos se unissem numa visão fulminante”, assumindo o “texto desalinhado, desordenado, incongruente, minuciosamente anti-literário (mas não anti-romanesco)”, Cortázar vai contra os “hábitos mentais” e rebenta com as fórmulas clássicas de contar uma história, consciente de que é preciso “desescrever” e “incendiar a linguagem”, para a libertar. Algo que só se consegue com a cumplicidade do leitor, arrancado à força da sua tradicional atitude passiva.
Mesmo quando arrisca mais, ao narrar uma cena erótica com palavras inventadas (o “gíglico”, dialecto dos amantes) ou ao fundir dois textos num só (em linhas alternadas), Rayuela nunca soçobra na mera pirotecnia, no virtuosismo estéril. Romance de ideias (não apenas literárias), muitas das suas reflexões mantêm uma impressionante actualidade e algumas delas anteciparam mesmo agitações futuras. Como quando Cortázar questiona, cinco anos antes do Maio de 68: “E o que é que quer dizer viver de outra maneira? Talvez viver absurdamente para acabar com o absurdo, deixar-se cair em si mesmo com uma tal violência que a queda acabasse nos braços do outro.”

Avaliação: 10/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



Comentários

8 Responses to “Tudo é literatura”

  1. Saint-Clair Stockler on Maio 14th, 2008 2:20

    Já ouviu falar do romance Avalovara, do brasileiro Osman Lins?

    Os portugueses tinham que conhecer as duas obras-primas desse escritor, infelizmente já falecido. O acima mencionado e o livro de narrativas Nove, novena.

    Embora eu adore Cortázar, prefiro Avalorava a Rayuela.

    “Avalovara: longamente congeminado, meticulosamente composto, resultava à risca, como um alquimista em seu laboratório secreto. Aqui, o requinte formal, e com ele a matéria romanesca, aprimora-se, supera-se. Partindo de um velho palíndromo – SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS, que o narrador traduz por “O lavrador sustém cuidadosamente a charrua nos sulcos” ou “O Lavrador sustém cuidadosamente o mundo em sua órbita”, assim insinuando dois dos sentidos simbólicos da figura, – Osman escreve um estranho e belo romance de amor, dos mais belos quantos já apareceram na Língua Portuguesa. Três mulheres, identificadas com cidades, cruzam a vida de Abel, o herói (ou o anti-herói?). Um exótico pássaro feito de pássaros – o que dá título à narrativa -, um relógio, um tapete de míticas imagens presenciam os encontros amorosos, inscritos no quadrado palindrômico atravessado por uma espiral interminável, símbolos do Homem e da Mulher. Ou do Tempo e do Espaço, inseridos numa figura geométrica hieroglífica, de esotérica significação. Sob as vistas do nouveau roman, mas fugindo de suas mortais fragilidades, provenientes do radicalismo de sua proposta fundamental, e repudiando o estereótipo folclórico que marcava a ficção brasileira, Osman concebe um romance ecumênico, universal; as cidades onde contracenam os amantes e por meio das quais as heroínas se deixam reconhecer, podem ser quaisquer, assim como as personagens que representam. O lugar e cronologia do enredo desobedecem à convenção: tudo se passa numa esfera e num tempo míticos, da mesma forma que pertencem ao mundo dos mitos o pássaro imaginário que nomeia a história, o relógio a pingar horas vagas, o tapete e tudo o mais. História de um mito, se a redundância é permitida; ou o romance como narração de um mito. Ou o Amor como Mito.

    Avalovara pretende reproduzir, na estrutura em palíndromo, configurado num quadrado e numa espiral, a ordem cósmica. É sabido que esta se rege pela entropia, de onde o (aparente) caráter multifacetado, anárquico, do romance, tendo em vista detectar as n dimensões temporais e espaciais. É um romance ucrônico, ubíquo, de utópicas cintilações. De geométrica ideação, traçado milímetro a milímetro, ancora-se na idéia do romance como construção mental, domesticada que é a fogosa fantasia pela rédeas do pensamento. Meta-romance, não sói porque o narrador porfia em desvendar-nos (?) o sentido do palíndromo e os passos de sua laboriosa fabulação, mas ainda por pensar o romance como arcabouço no qual a multifome realidade se reflete e por meio da qual o autor e o leitor fruem a sensação de abranger a totalidade do mundo num só painel fabultivo.

    (adapt. De Massaud Moisés, Hist. Da Lit. Brás.: O Modernismo, ed. Cultrix, 1989, p.510-511)”

  2. Hélder Beja on Maio 21st, 2008 1:28

    Rayuela é romanesco e filosófico à vez. A estrutura cativa. Ler um livro aos trambolhões nos capítulos, mas sempre guiado pela inteligência de Cortázar, tem sido uma experiência difícil de igualar. Louve-se a edição da Cavalo de Ferro. Finalmente.

  3. Bibliotecário de Babel – Rayuela, modo de usar on Junho 23rd, 2008 7:53

    […] no início do romance Rayuela, finalmente editado em Portugal pela Cavalo de Ferro (com um atraso de quase meio século), Julio Cortázar oferece ao leitor uma “Tábua de […]

  4. Bibliotecário de Babel – A viagem diagonal on Agosto 5th, 2008 13:52

    […] publicados quase em simultâneo, pela primeira vez por cá, dois fabulosos romances argentinos: Rayuela, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), e Bomarzo, de Manuel Mujica Lainez (Sextante). Duas obras […]

  5. Luana on Setembro 8th, 2008 16:27

    eu encontro tudo o que quero nesse site….amo a google…..
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  6. Bibliotecário de Babel – Listas on Janeiro 5th, 2009 1:44

    […] O Jogo do Mundo (Rayuela), de Julio Cortázar, Cavalo de Ferro Os Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño, Teorema Menina Else, de Arthur Schnitzler, Cotovia As Vozes do Rio Pamano, de Jaume Cabré, Tinta-da-China Paris, de Julien Green, Tinta-da-China Um Mundo para Julius, de Alfredo Bryce Echenique, Teorema Campo Santo, de W. G. Sebald, Teorema Como a Raiva ao Vento, de Rawi Hage, Civilização O Filho Eterno, de Cristovão Tezza, Gradiva Os Homens que Odeiam as Mulheres, de Stieg Larsson, Oceanos […]

  7. Inéditos de Cortázar também em português | Bibliotecário de Babel on Fevereiro 11th, 2009 13:13

    […] com Diogo Madredeus (editor da Cavalo de Ferro, responsável pela primeira versão portuguesa de Rayuela, lançada em 2008), encontrei resposta para a pergunta que todos os cortázarianos se devem ter […]

  8. Boa nova | Bibliotecário de Babel on Abril 1st, 2009 15:13

    […] de nos ter oferecido Rayuela em 2008, a Cavalo de Ferro vai editar neste mês de Abril o livro Volta ao Dia em Oitenta Mundos, […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges