Última menção àquele livro de mil e tal páginas

E pronto. Já chega. Acabou-se o 2666 por aqui. Não quero que os leitores comecem a odiar o que é suposto amarem. O ciclo fecha-se. Quem quiser saber mais coisas de 2666, que o leia. Ele já está por aí, numa livraria, à espera.
Acabei de dizer que um ciclo se fecha (o da expectativa gerada em quem não leu, por quem leu), mas na verdade há um outro que começa (a fase do desprezo altivo em relação ao livro e a quem o leu, por parte de quem não leu). É um fenómeno típico e dos mais previsíveis: se há um movimento de entusiasmo próximo do unanimismo, então seguir-se-á um contra-movimento cujo único objectivo é furar esse suposto unanimismo; ou seja, demonstrar orgulho por ficar de fora e fazer disso um statement. Não por acaso, é justamente no dia em que 2666 chega às livrarias que este contra-movimento começa a pôr a cabeça de fora. Começou com este texto irónico, mas decente, do Eurico de Barros. Prosseguiu com este disparate ressabiado do João Gonçalves. E há-de continuar nos próximos dias, em vários registos e matizes. Sei-o bem. Tão bem como sei isto: por muito que o elogiem ou desvalorizem, 2666 continuará a ser um livro extraordinário, um livro genial, um livro capaz de sobreviver a tudo.
Ainda assim, depois do célebre «Tanto Pessoa já enjoa» de 1988, ficaria triste se uma das frases de 2009 fosse «Já desdenho de tanto Bolaño». Nem o livro nem o escritor merecem tal sorte.



Comentários

18 Responses to “Última menção àquele livro de mil e tal páginas”

  1. maradona on Setembro 27th, 2009 1:40

    espero, também, que se possa não gostar do livro sem se ser automaticamente classificado como um dos que querem “demonstrar orgulho por ficar de fora e fazer disso um statement.” tenho um conselho excepcional para dar: neste tipo de merdas o melhor é não reagir. um gajo gosta e acha que o livro vai sobreviver tantos anos como as páginas que tem? diga-o, alvitre-o, mas sem se esforçar por achar motivações snobs nos outros, mesmo que tenha razão (o que pode ser ou não o caso). são cenas que não valem a pena, pelo simples facto de que são estéreis. um gajo sabe lá.

  2. Gerana Damulakis on Setembro 27th, 2009 1:44

    O movimento do contra, pelo que percebi, é humano, demasiado humano, e fruto de uma parte da humanidade que costumo chamar de “os ressentidos”. Os ressentidos são pessoas que, não tendo como chamar a atenção pelo talento, pela percepção aguçada ou afins, só lhes resta o caminho do contra: o fácil caminho do contra. Há algo mais fácil do que escrever no negativo tudo que foi escrito em nome do sim? Basta coloca um “não”. Eles sabem fazer isto e apenas isto.

  3. Luís Nunes on Setembro 27th, 2009 4:31

    O problema é que muitas vezes se confunde empolgamento com favores; a amigos que pedem para que se fale até à exaustão dum produto que, acima de tudo – das palavras, da obra, do homem, se quer apenas e tão-só vender.
    De qualquer forma, e lendo os excertos – e foram esses, unicamente, que me cativaram, pois nunca li bolaño – que vi neste e noutros blogues, creio que faz sentido o alarde em torno do livro. Agora é tempo de se virarem as páginas, porque isto de ficar sempre parado na mesma decerto cansará.

  4. Vítor Coelho on Setembro 27th, 2009 8:28

    Bom, irei fazer um esforço para ler o livro. Mas se não gostar, vai ouvir-me das boas :-)

  5. José Mário Silva on Setembro 27th, 2009 9:19

    maradona,
    É óbvio que se pode «não gostar do livro sem se ser automaticamente classificado como um dos que querem “demonstrar orgulho por ficar de fora e fazer disso um statement”». Estou à espera de quem tenha lido o ‘2666’ e, não gostando, o diga e explique porquê. Respeitarei infinitamente mais essa opinião do que os elogios e ataques acríticos de quem se limita a comentar, com gáudio ou incómodo, o fenómeno em que o livro (talvez inevitavelmente) se transformou.

  6. António on Setembro 27th, 2009 10:14

    Caro José Mário

    Gosto muito de Bolaño: embora ainda só tenha lido dois livros dele, ficaram-me definitivamente na órbita – e é um daqueles escritores que sei que lerei durante toda a vida. E sim, estou ansioso por ler o 2666 – mal tenha dinheiro para o comprar ou a biblioteca aqui do burgo o faça por mim. Mas não gosto de injecções. E não confunda a renitência a esta, como diria um amigo meu, “hello-kittyzação” do Bolaño com alguma renitência ao próprio Bolaño: eu gosto muito da minha mãe e gosto muito de sopa, mas nunca gostei que ela ma tentasse impingir.

    É preciso silêncio para ler um bom livro, e tem-se feito demasiado barulho. Espero que agora a coisa acalme e as pessoas possam ler sossegadas, sem o espectro dalguma espécie de guardião sobre os nossos ombros a sublinhar-nos, com palmadas no cocuruto, a genialidade de cada passagem.

    Como diz, e muito bem, nem o livro nem o escritor merecem tal sorte.

    António.

  7. gaf on Setembro 27th, 2009 10:19

    Pois eu acho que o Portugal dos Pequeninos pôs o dedo da ferida, e acho que devem ler-se também os comentários desse post. Não se trata de qualquer ressentimento, e tenho pena que o JMS, normalmente tão justo, tenha caído nesta fabricação de um facto literário montada pelas editoras em promiscuidade com alguns críticos e blogues culturais. Infelizmente já não é a primeira vez. Quanto a ressentimento: o pobre e oportunista statement cultural e político actual tem por norma chamar ressentidos aos que não estão de acordo com as manobras publicitárias, assim como chamar aos revolucionários, por exemplo, «sociopatas», aos descontentes e inquietos «psicopatas», etc. É a direita chapada no nosso pobre situacionismo cultural.
    Quanto ao 2666, é apenas o «produto» escolhido para atingir o público-alvo.

  8. Jorge A. S. on Setembro 27th, 2009 10:31

    Há sempre quem fale/escreva para não estar calado. Eu próprio padeço da maleita.

    Li o “2666” no original castelhano vai para dois anos e devorei toda a obra de Bolaño. Acho extraordinário que se pronunciem sobre um livro ou um autor sem o terem lido ou conhecido, mas, “hélas”, é vício habitual e permeia todos os domínios da humana actividade. O facto de neste obra coincidirem vendas estratosféricas e qualidade literária excepcionaluma obra prima não deveria obnubilar os espíritos. Que comentadores anónimos coloquem no mesmo saco Dan Brown e Roberto Bolaño diz volumes sobre a desorientação que vai por aí.

    “2666” é uma “live changing experience” e são poucos os livros que alcançam este estatuto. Que um livro, obra ou autor possam causar tamanha comoção exige evidentemente predisposição e uma certa vivência da literatura e da leitura como motor de transformação pessoal e social. Pessoas diferentes vibram com estímulos diferentes.

    Há quem se compraza numa cultura feita de “sound-bytes” e de artifícios retóricos. É humano e eminentemente respeitável, mas limitado. Quando não se vai ao fundo das questões, o risco é cair na “tagarelice”

  9. José Mário Silva on Setembro 27th, 2009 16:28

    gaf,

    Os factos literários não se fabricam, acontecem. Sem conjuras maquiavélicas, interesses obscuros, conspirações. Se é isso que lhe interessa, não vale de facto a pena ler Bolaño, sobretudo quando está aí a chegar o novo Dan Brown, cheio dessa retórica fácil e perigosa sobre jogos no escuro e grandes maquinações.
    Se acha que o lamentável post do João Gonçalves põe o dedo na ferida (a par com os ainda mais lamentáveis comentários que por lá andam), digo-lhe uma coisa: ou não sabe o que é um dedo, ou não sabe o que é uma ferida.
    Quanto ao resto, chegar à conclusão, por meio de silogismos forçadíssimos, de que pertenço a uma qualquer «direita chapada no nosso pobre situacionismo cultural» é já da ordem do insulto. E a insultos eu não respondo.

  10. gaf on Setembro 27th, 2009 21:32

    José Mário Silva, não se sinta insultado, não foi essa a minha intenção. Sei que não é de direita, já o conheço (dos blogues e dos jornais) há muitos anos. Os meus «silogismos forçadíssimos» sê-lo-ão menos se vir que me refiro ao ambiente cultural geral. Já nem a direita se atreve a dizer que o mundo cultural é dominado pela esquerda, como fazia sempre há uns tempos. Devo dizer que «forçado» é eu meter esquerda vs. direita no mundo cultural (sobretudo dos livros), uma vez que ambas fazem parte desse mundo. Mas que há agora uma preponderância da direita, lá isso há. O essencial, porém, é que, esquerda ou direita, é legítimo a um qualquer cidadão que lê livros poder escolhê-los sem ser bombardeado por um marketing semelhante aos dos vendedores de tee-shirts e de refrigerantes. E tem toda a legitimidade de criticar esses métodos publicitários. Posso estar enganado e posso ser contraditado, mas com argumentos lógicos e inteligentes e não com o eterno «ressabiamento» e «inveja»… Isso não é argumento, é infantil e, desculpem, é primário e uma falta de respeito para quem não está de acordo com vocês…

  11. José Mário Silva on Setembro 27th, 2009 22:21

    gaf,

    «Mas que há agora uma preponderância da direita, lá isso há» – não podia estar mais de acordo, meu caro.
    Quanto ao ressabiamento, é a única explicação que encontro para o texto do João Gonçalves; ou melhor, para o tom com que ele abordou esta questão do ‘2666’. Não pretendia, como é evidente e já disse mais acima, desrespeitar quem não adere a Bolaño (era o que faltava), mas sim apontar o dedo a quem ataca sem argumentos, de forma simplista e acrítica.

  12. Vítor Coelho da Silva on Setembro 27th, 2009 22:29

    Não posso deixar de estar de acordo com o GAF. E o que me parece é que este bombardeamento publicitário sobre determinados livros por pessoas insuspeitas de estarem a ser manipuladas (pagas) para o fazer, poderá levar muita gente a pensar isso mesmo. E, no caso de José Mário Silva, isso seria com certeza uma tremenda injustiça. Nada tenho contra a publicidade que as Editoras fazem aos seus livros, inclusivamente em blogs, mas no caso da Blogosfera penso que deveria haver muito cuidado e saber mostrar o que poderá ser eventualmente publicidade paga do que é o simples prazer intelectual e pessoal de revelar as obras que vão saindo.

  13. José Mário Silva on Setembro 27th, 2009 22:55

    Caro Vítor,

    Duas coisas:

    1) Acho que essa destrinça é mais fácil de fazer do que sugere, sobretudo quando se conhece o trabalho anterior dos críticos e bloggers. Só confunde entusiasmo e “prazer intelectual” com “publicidade” quem estiver muito distraído ou com má-fé.

    2) Pensar que as editoras portuguesas têm meios para campanhas pagas de aliciamento de críticos, além de implicações éticas graves que não se devem avançar de ânimo leve, implica desconhecer a realidade (até económica) do mundo editorial português.

  14. João Miguel Almeida on Setembro 28th, 2009 11:19

    Uma das coisas que me inculcou um professor chileno de jornalismo no colégio foi a ler para poder criticar – literatura, programas políticos, tudo. Pelos excertos que tenho lido/ouvido esse meu professor até podia ser uma personagem de Bolaño. Se ele assistisse a este fenómeno havia de se sentir dividido entre o orgulho chileno e a mania de ser do contra, para além do juízo sobre a qualidade literária.
    Não vou dar a minha opinião sem ler, provavelmente em castelhano, provavelmente quando arranjar mais tempo para me embrenhar no volume.
    Nunca tinha ido a um lançamento de um livro de ficção em que se lessem excertos da obra. Achei piada, embora talvez fosse um pouco longo de mais. E com demasiada gente para haver uma espécie de debate/troca de impressões sobre o livro. Gostei especialmente da intervenção do JMS e da leitura da Soraia Chaves, muito bem escolhida e feita com a postura adequada, no tempo certo. Deviam convidá-la mais vezes para este tipo de acontecimentos.

  15. José Eduardo Cabral on Setembro 28th, 2009 15:51

    «Gostei especialmente (…) da leitura da Soraia Chaves, muito bem escolhida e feita com a postura adequada, no tempo certo. Deviam convidá-la mais vezes para este tipo de acontecimentos.»

    Pois, foi de facto uma boa leitura, conseguiu juntar as letras todas sem demorar muito tempo (deve ter tido tempo para preparar em casa, com certeza) e falou para que todos ouvissem sem adormecer. Boa, Soraia!

    Pergunto apenas uma coisa: qual o papel relevante da pessoa em causa para ser convidada para um evento desta dimensão? Mérito comercial? Só pode ser… com tantos e tantos (excelentes) artistas verdadeiramente integrados no mundo da cultura, não encontraram ninguém com mais valor e qualidade para fazer o que ela fez? Ou temiam que o público masculino não se dignasse deslocar à livraria? Se assim foi, boa estratégia: estava de facto a rebentar pelas costuras.

  16. Blimunda on Setembro 28th, 2009 23:38

    Nós portugueses somos tão estranhos… Acho que posso dizer isto, já vejo o nosso país um bocadinho à distância, aqui do outro lado do Oceano. Quando houve a euforia 2666 aqui deste lado (o ano passado) foi a loucura total, era impossível ir ao Starbucks e não estarmos aí umas duas ou três pessoas a ler o mesmo livro e, imediatamente se metia conversa com o leitor-do-mesmo-livro da mesa ao lado, para mim foram tempos difíceis porque comprei a edição hardcover em castelhano e carregar o livro era um pesadelo sobretudo porque o meu meio de transporte é uma bicicleta…

    Quando é que em Portugal irei a um café e na mesa ao lado alguém lerá o mesmo livro do que eu (e para quem percebe de probabilidades, a probabilidade é maior aí do que aqui)? Quem é que em Portugal faz um amigo no café porque tem o mesmo livro em cima da mesa?

    Porque é que algumas pessoas têm tantos problemas acerca de uma histeria colectiva, uma espécie de Harry Potter para adultos com uma simetria (de translação) da magia que não faz mal a ninguém?

    Já agora, quando é que em Portugal irei ao banco ou a uma repartição pública e estarão a ler o 2666?

    Por favor, José Mário, que continue a histeria que o motivo é excelente — um livro.

    E desculpe o desabafo.

  17. Paulo Alves on Setembro 29th, 2009 3:25

    já que termina, deixe-me começar.

  18. João Miguel Almeida on Setembro 29th, 2009 10:06

    Caro José Eduardo Cabral,

    A Carla Bolito leu muito bem. Preferia era que tivesse escolhido um excerto menos extenso. Também gostei da leitura do José Eduardo Agualusa, embora o prefira como escritor.
    «(…) verdadeiramente integrados no mundo da cultura (…)»
    Esta expressão dá-me arrepios na espinha. Quem é que nos garante que só os «verdadeiramente integrados no mundo da cultura» é que são bons? Pelo que li, Bolaño, durante grande parte da sua vida, não o foi. Fernando Pessoa só o foi postumamente. O grande romance é um género popular e não uma arte de elites e de «verdadeiramente integrados» no que quer que seja.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges