Últimas mesas

A mesa 5 («A escrita é um investimento inesgotável no prazer») foi talvez a mais animada de todas. Afonso Cruz cerziu várias histórias, no seu modo fragmentário e erudito, terminando com aquela em que o filho de quatro anos deu a entender, a um adulto, que gostava muito do Tolstoi (o pai, espantado, foi verificar a precocidade literária do miúdo e percebeu que afinal ele gostava mesmo era do «toi stoi»; ou seja, do Toy Story). Júlio Magalhães teve a humildade de reconhecer que era um não-escritor numa mesa de escritores e contou episódios engraçados da sua relação com os leitores (nomeadamente arrumadores de carros e pedintes). Ana Luísa Amaral, às voltas com um abcesso, leu um belo texto, todo ritmo e ímpeto. Valter Hugo Mãe fez uma extravagante e divertida declaração de amor a Rubem Fonseca, com a sugestão de um engate casto que acabaria com o escritor português deitado na cama do octogenário brasileiro, muito quietinho, abrindo de vez em quando os olhos «para o admirar». Manuel Moya foi evocativo, lírico, nostálgico. E Rui Zink correspondeu às expectativas, saltando de digressão em digressão, num caos calculado para ultrapassar o tempo da prometida franqueza («Juro dizer a verdade e só a verdade nos próximos dez minutos»), de modo a poder terminar, com mais wishfull thinking do que verosimilhança, fazendo o relato de uma suposta facadinha no casamento, com o pretexto do «trabalho de campo» para um romance sobre a infidelidade. No período de perguntas do público, uma leitora confessou que também vai para a cama com o Valter (quer dizer, com os seus livros), e uma outra anunciou a intenção de se deitar com todos os participantes da mesa, ao que o moderador da mesma, Henrique Cayatte, se apressou a dizer «Mas olhe que eu não sou escritor, eu não sou escritor».
Embora melhor do que a mesa 2, a mesa 6 («Da crise da escrita não se pode fugir») também deixou muito a desejar. Carmo Neto e João Pedro Marques não arrancaram os espectadores ao torpor de sábado de manhã (a sessão começou às 10h30), Miguel Real fez uma abrangente panorâmica da cultura portuguesa dos últimos séculos, com o foco nos intelectuais que se viram obrigados a passar os seus anos mais criativos fora de Portugal (um discurso com muita informação interessante, mas demasiado enumerativo, ao ponto de se tornar fastidioso), e Salgado Maranhão mostrou excelentes dotes de comunicação, só que ao serviço de uma abordagem do tema que pecou por ser impressionista e errática. As intervenções mais interessantes couberam aos oradores mais novos: Valeria Luiselli, que falou sobre a eternização das crises mexicanas e o lugar excessivo que a questão do narcotráfico ocupa no imaginário da literatura contemporânea do seu país; e Sandro William Junqueira, que leu um conto em que a crise real (a da austeridade, das dívidas, das contas por pagar) se intromete nas crises da criação literária.
Finalmente, a mesa 7 bateu todos os recordes de adesão por parte do público e os espectadores (que ultrapassaram largamente a lotação do Auditório Municipal) não se sentiram defraudados. Eugénio Lisboa deu uma notável lição de sapiência em que questionou as duas versões da frase-tema («As ideias são fundos que nunca darão juros nas mãos do talento», em tradução que inverte o sentido original da frase de Antoine Rivarol). Helena Vasconcelos explorou a ambiguidade etimológica da palavra «talento». Luís Sepúlveda improvisou um devaneio algo preguiçoso. Gonçalo M. Tavares aproximou-se do tema muito ao seu jeito, analiticamente, em círculos, a partir de notas escritas na viagem de comboio entre Lisboa e o Porto. Onésimo explorou todas as variações possíveis da frase, no meio da habitual vertigem de anedotas. E João de Melo estreou-se nas Correntes em grande estilo, mostrando as suas qualidades narrativas numa intervenção brilhante, irónica e autodepreciativa, que partiu das memórias de infância nos Açores, à sombra de uma família numerosa em que o pai o considerava um fardo («Este não vale sequer a água que bebe»), passando pela parábola bíblica dos talentos.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges