Um ano de transição

Depois do alvoroço provocado em 2008 pelo aparecimento da LeYa, o processo de transformação da paisagem editorial portuguesa desacelerou em 2009, devido à crise económica. Embora o sector do livro seja um dos que tradicionalmente resiste melhor aos períodos de recessão, as dificuldades transversais (como as relativas à obtenção de créditos bancários) acabaram por deixar as suas marcas, vísiveis nos cortes generalizados dos planos editoriais (que passaram a contar com menos novidades e mais reedições ou recapagens), na quebra significativa tanto das vendas como das tiragens, no fechar de portas de uma livraria clássica de Lisboa (a Buchholz, que teve o mesmo destino da Byblos, um ano antes) e na falência de algumas editoras, como a Campo das Letras e as Quasi.
Curiosamente, os recentes sinais de retoma também se fizeram acompanhar por algumas boas notícias, como o facto de a Cavalo de Ferro ter renascido das cinzas (após um conturbado e abortado processo de integração no universo empresarial da Fundação Agostinho Fernandes) e o surgimento de novas pequenas editoras estimulantes, como a Ahab, a Estrofes & Versos ou a LxXL.
Por outro lado, os últimos meses do ano deixam entender que o processo de concentração está de novo em marcha, desde logo com a criação de um novo grupo — Babel — que reúne as duas editoras já detidas por Paulo Teixeira Pinto (Guimarães e Ática) e as duas que o empresário adquiriu recentemente (Verbo e Ulisseia). A grande incógnita de 2010, porém, é o destino dos activos portugueses da Bertelsmann, que o gigante alemão se mostra disponível para vender a curto prazo. Quando se sabe que os referidos activos abrangem o Círculo de Leitores, mais um núcleo de quatro editoras (Bertrand, Quetzal, Pergaminho, Temas e Debates) e a maior rede de livrarias do país (Bertrand), parece evidente que o negócio em causa vai alterar por completo o equilíbrio de forças no mercado livreiro em Portugal.
Num ano pródigo em livros com potencial para conquistar o primeiro lugar dos tops (Miguel Sousa Tavares, Margarida Rebelo Pinto, José Rodrigues dos Santos, Ricardo Araújo Pereira; além dos consagrados António Lobo Antunes e José Saramago), Rodrigues dos Santos afirmou-se de vez como o rei dos best-sellers, ao vender mais de 150 mil exemplares de Fúria Divina (Gradiva) em poucas semanas, ultrapassando a barreira do milhão de exemplares vendidos de toda a sua obra.
A uma escala mais modesta, registe-se o sucesso comercial de 2666, de Roberto Bolaño (melhor livro do ano para a redacção do Actual, feito o somatório das escolhas de cada um dos colaboradores da secção de Livros), com cerca de 23 mil exemplares vendidos.

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges