Um bilhete para Anchorage

Na nossa família, o Alasca era um ponto de fuga. Sempre que o meu pai desesperava com os conflitos na fábrica e o problema das dívidas, dizia: «Um dia destes pego em nós e vamos todos para o Alasca.» Começar do zero era o sonho dele. Ir para longe de tudo, para longe da vida real, tão miserável. Encontrar um princípio qualquer no fim do mundo.
Eu imaginava-nos a chegar àquele lugar demasiado grande: as montanhas, os lagos, os glaciares, tudo imenso, a natureza belíssima mas agreste, devoradora. Sonhei muitas vezes com a luz mínima do Inverno, eu e os meus irmãos a caminho de uma escola soturna, atravessando a neve, aprendendo devagar a linguagem do frio.
Um dia percebi que o meu pai dizia aquilo por dizer. Onde estava Alasca podia estar Austrália, deserto de Gobi, a Lua. O meu pai morreu há duas semanas. Um acidente na fábrica, horrível. Ficou cinco dias no hospital, a agonizar, sustido pela morfina. A minha mãe não diz nada, só murmura rezas, fechou-se dentro de um luto que é só uma forma de loucura. Nenhum dos meus irmãos voltou a casa neste momento tão triste. Um está preso, outro num cargueiro algures no meio do Pacífico, ao mais novo há muito que perdemos o rasto. Antes de ir visitar o meu pai ao hospital, na manhã em que os médicos nos roubaram qualquer esperança, despedi-me do trabalho de merda que me consumiu toda a energia nos últimos vinte anos.
«Vou-me embora, pai», disse baixinho. Mexeu-se na cama. Gemeu. Os tubos. Os sons das máquinas que respiravam por ele, que lhe purificavam ainda o sangue condenado. «Fazes bem, filho, não há aqui nada por que valha a pena lutar.» A voz muito arrastada, ruína no meio da tosse. «E vais para onde?» Pousei a mão no peito dele. Senti o estertor dos pulmões. «Ainda não disse a ninguém, mas vou para o Alasca.» Ele ficou parado, os olhos muito abertos, a estudar-me, a certificar-se de que eu falava a sério. Então tirei o bilhete do bolso e mostrei-o. O meu pai começou a tremelicar. Era uma espécie de solavanco suave, contido, abafado. Julguei que se ia desfazer. Mas então, em vez do choro, o seu corpo abriu-se à gargalhada. Uma gargalhada funda, a vencer a resistência do corpo dorido, uma gargalhada impossível, um desafio à morte, um último gesto de rebeldia desperdiçado comigo, o filho disposto a cumprir a sua antiga ameaça. Ao fim de uns minutos, exausto, parou de rir e ficou imóvel. Outra vez o quase silêncio. Só os sons das máquinas que respiravam por ele, que lhe purificavam ainda o sangue condenado.
Quando abriu novamente os olhos, a muito custo, não disse nada. Fez um gesto com a mão, para que me fosse. Eu saí do quarto, sem saber se aprovava a minha decisão ou se me considerava louco, parvo, infantil, mais um filho perdido, o último numa cadeia de desilusões. Parti para Anchorage na manhã seguinte, mais ou menos à hora a que lhe assinaram a certidão de óbito. Quando pisei pela primeira vez o solo do Alasca, foi dele que me lembrei. Acho que só trouxe da minha vida anterior a imagem do meu pai preso à cama do hospital. E a gargalhada tenebrosa. Ontem, quando olhava para um glaciar ao longe, meio escondido pela névoa, apercebi-me de que foi a única vez que o ouvi rir.

[Texto publicado no n.º 7 da revista A Sul de Nenhum Norte, 2012]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges