Um Booker vintage


Ilustração de Pedro Vieira

Trinta e um minutos. Pouco mais de meia-hora foi quanto durou a reunião final do júri do Man Booker Prize 2011 — presidido por uma antiga directora do MI5, Dame Stella Rimington — que atribuiu a vitória ao romance The Sense of an Ending, de Julian Barnes. A rapidez, porém, é enganadora. Antes de se chegar a um consenso, houve um outro livro (não especificado) que ainda deu luta a Barnes, o favorito dos críticos e das agências de apostas. No fim, era previsível que o autor de Uma História do Mundo em Dez Capítulos e Meio conquistasse finalmente o mais cobiçado prémio literário da língua inglesa, no valor de 50 mil libras (cerca de 57 mil euros), depois de três presenças falhadas na shortlist — com O Papagaio de Flaubert (1984), Inglaterra, Inglaterra (1998) e Arthur & George (2005).
A vitória era previsível não apenas porque The Sense of an Ending se destaca efectivamente como o melhor dos seis romances finalistas (micro-críticas de todos eles mais abaixo), mas porque o triunfo de Barnes de certa forma permite uma saída airosa para um júri que esteve debaixo de fogo nas últimas semanas. A agitação mediática começou assim que foi anunciada a shortlist, no início de Setembro, com o júri a assumir que a «facilidade de leitura» fora um dos principais critérios tidos em conta na escolha dos finalistas. A reacção indignada de vários críticos e editores não se fez esperar. Na imprensa, surgiram vários artigos de opinião que acusavam Rimington de abdicar ostensivamente da exigência literária, o selo de qualidade que estabeleceu o prestígio do Booker, em favor de um populismo ao serviço da lógica comercial do mainstream. Muitos críticos questionaram ainda a exclusão de autores mais exigentes, como Alan Hollinghurst (The Stranger’s Child), Edward St. Aubyn (At Last) e Ali Smith (There But For The), dando a entender que o prémio, ao prosseguir este caminho, provaria ter já ultrapassado o prazo de validade.
Aproveitando a «crise do Booker», houve mesmo um grupo de autores e agentes literários que propuseram a criação de um novo prémio, o Literature Prize, capaz de assumir o papel de promoção da excelência literária que o Booker supostamente teria deixado de cumprir. Com o apoio de alguns nomes fortes no meio (como John Banville, Mark Haddon, Nicole Krauss ou David Mitchell) e a cumplicidade da inteligentsia editorial britânica, os promotores do novo prémio ainda procuram patrocínios e esperam surgir em 2012 como uma alternativa válida. Até lá, o clima de guerra aberta — com Rimington a dizer que os críticos da shortlist são «patéticos» e a sugerir, no seu discurso de entrega, que o mundo editorial tem mais intrigas do que os meandros da espionagem, de onde veio — promete bastante animação para os próximos meses nas páginas de cultura dos jornais britânicos.

Quanto a Julian Barnes, que sempre teve uma relação difícil com o Booker, chegando a chamar-lhe «bingo chique», mostrou-se sobretudo aliviado: «Não queria ir para a cova e depois ganhar um Beryl» (referência a Beryl Bainbridge, cinco vezes finalista derrotada, a quem foi atribuído um Booker honorário póstumo). Já a polémica sobre a «facilidade de leitura» lhe parece uma falsa questão: «A maioria dos grandes livros são fáceis de ler. Todas as shortlists da última década continham sobretudo livros que se podem considerar de leitura fácil.»
Barnes garante ainda que o facto de ter sido premiado não alterou as reservas manifestadas ao longo dos anos. Para ele, o Booker continua a comprometer a lucidez das pessoas, sobretudo dos escritores, que se deixam levar por uma mistura de «esperança, desejo, ganância e expectativa». Retomando a metáfora da sorte, ironizou: «A melhor forma de manter a sanidade é encarar isto como uma lotaria, até ao momento em que se ganha. A partir daí, passamos a considerar que os jurados são as cabeças mais sábias da Cristandade literária.» Planos para gastar as 50 mil libras, também tem: «O primeiro item da lista é uma bracelete para o relógio, mas pensando bem talvez possa comprar um relógio inteiro.» E talvez o use com o mostrador virado para baixo, como o protagonista do seu livro.
Lúcia Pinho e Melo, da Quetzal, a editora que publica neste momento Julian Barnes no nosso país, recebeu com muita alegria as notícias que chegaram de Londres: «Ele é um escritor maravilhoso e já merecia este prémio há muito tempo. Era uma questão de justiça.» Comprados os direitos de The Sense of an Ending há cerca de mês e meio, quando foi anunciada a shortlist, a tradução foi de imediato entregue a Helena Cardoso, «uma barnesiana», acelerando os prazos de produção do novo livro para a eventualidade de uma vitória no Booker. «Embora o efeito deste prémio por cá não se compare com o que acontece em Inglaterra, esperamos um aumento das vendas deste autor que nunca foi best-seller em Portugal, aumento talvez extensivo aos livros dele que editámos ou reeditámos recentemente, como Nada a Temer ou O Papagaio de Flaubert». Se tudo correr bem, O Sentido do Fim estará nas livrarias em meados de Novembro.

Breve análise aos seis finalistas do Man Booker Prize 2011:

The Sense of an Ending
Julian Barnes
Jonathan Cape, 160 págs.
*****

Todos nós vivemos imersos no tempo. É ele que nos molda e sustém. Mas também é ele que nos atraiçoa. Eis a lição que Tony Webster, o subtil e evasivo narrador do último romance de Julian Barnes, aprende tarde na vida, ao querer dar um sentido ao passado. Já na reforma, tranquilo na sua solidão (mantém um contacto caloroso mas pouco regular com a ex-mulher e com a filha), recebe um misterioso eco da juventude, quando a mãe de uma namorada ocasional da adolescência, com quem não se chegou a envolver de forma séria, lhe deixa em testamento o diário de um dos seus melhores amigos: Adrian Finn. Ele era o mais inteligente e promissor do seu grupo de amigos, mas suicidou-se, lançando com a sua morte uma sombra sobre os companheiros. Tony recupera então, pouco a pouco, as memórias dessa amizade antiga e desse amor que não chegou a ser, mergulhando na matéria «mutável» do passado, com os seus abismos e armadilhas, as suas verdades voláteis e segredos dolorosos. Barnes conduz Tony até à revelação dos seus erros, da sua cegueira, da dor que inflingiu aos outros sem se aperceber. E fá-lo com tal mestria que o desenlace da história, quando chega, é tão poderoso e surpreendente para o protagonista como para o leitor. Só por esta precisão narrativa, The Sense of an Ending seria sempre um grande livro. Mas a escrita de Barnes — com as suas frases perfeitas, por vezes a raiar o sublime — torna-o uma obra-prima.

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The Sisters Brothers
Patrick DeWitt
Ecco, 320 págs.
****

O ano é 1851. Além de gémeos, Eli e Charlie são companheiros de trabalho, conhecidos em todo o estado do Oregon como uma temível dupla de assassinos a soldo. O Commodore para quem trabalham decide enviá-los para a Califórnia, onde é suposto matarem um homem chamado Hermann Kermit Warm, inventor de uma fórmula química que permite descobrir mais facilmente as pepitas de ouro no fundo dos rios. Charlie é bruto e conflituoso. Eli é atento e sensível, deixando uma mulher à espera em cada lugar por onde passa. Os irmãos discutem por tudo e por nada mas entendem-se, confiam um no outro, apoiam-se sempre que necessário. Aos solavancos, entre bebedeiras de caixão à cova e dores de dentes, a sua bizarra odisseia vai avançando, fluida e divertida, iluminada por súbitas explosões de uma violência tarantinesca. Recorrendo a todos os códigos do género, mas com uma espécie de distanciamento irónico, o canadiano Patrick DeWitt escreveu um western ácido e picaresco que se lê com um entusiasmo crescente. O humor é refinado, os diálogos são excelentes, a consistência estilística nunca vacila. Só o inesperado final feliz é que soa um pouco a falso, como se DeWitt já não soubesse o que fazer com as extraordinárias personagens que criou.

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Jamrach’s Menagerie
Carol Birch
Canongate, 347 págs.
****

Na origem deste romance está uma história verdadeira, imortalizada numa estátua que pode ser vista no bairro de Wapping, em Londres. No séc. XIX, Charles Jamrach era um importador de animais exóticos que tanto abastecia o jardim zoológico como o estúdio do pintor Dante Gabriel Rossetti. Certo dia, um dos seus caixotes abriu-se em plena rua e saiu lá de dentro um tigre de Bengala. Uma criança aproximou-se então do que julgava ser um estranho gato e só não foi devorada porque Jamrach conseguiu intervir in extremis. O que Carol Birch faz no seu livro é inventar uma vida para essa criança anónima, aqui convertida num rapaz a que não falta um nome (Jaffy Brown) e uma certa aura de herói romântico. Impressionado com a coragem de Brown, Jamrach contrata-o para a sua loja, mas a ambição do miúdo não tem limites. Ao ver os navios de grandes mastros no porto de Londres, ele sente o apelo das aventuras marítimas e acaba por ser recompensado, ao embarcar numa expedição organizada pelo seu mestre, com o objectivo de capturar, nas paragens remotas do Pacífico Sul, um grande lagarto a que chamam «dragão». A viagem — épica e devastadora — é um tirocínio para a idade adulta que Birch narra com majestade e brilho, tendo sempre no horizonte a prosa de Dickens e Melville.

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Half Blood Blues
Esi Edugyan
Serpent’s Tail, 343 págs.
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O aspecto mais interessante de Half Blood Blues, da escritora canadiana Esi Edugyan, é a abordagem aos problemas com que se defrontaram, durante a II Grande Guerra, os alemães negros — ou mischling (mestiços) — que embora menos perseguidos do que os judeus ou os comunistas, ficaram em situação precária ao perderem a cidadania alemã. Hieronimus Falk é um desses mischlings, além de trompetista genial, em quem toda a gente vê um futuro herdeiro de Louis Armstrong. No circuito do jazz berlinense dos anos 30, ele junta-se a um grupo de músicos ecléctico, de que fazem parte dois negros americanos de Baltimore: Sid Griffiths (contrabaixo) e Chip Jones (bateria). Obrigados a fugir para Paris no início da guerra, estes homens ficam marcados pelo momento em que Falk é detido pelos nazis e desaparece de circulação. Narrado por Sid, o livro salta para trás e para a frente no tempo, dissecando as relações de amizade entre os músicos e os estragos provocados pela inveja, pelo ciúme e pela traição. Edugyan tece bem os vários planos da história, mas é pena que deixe praticamente de lado a figura de Falk e o seu percurso na sombra, chamando para primeiro plano uma história de amor relativamente vulgar. Aqui e ali tropeçamos também em clichés (sobretudo nas cenas musicais) e em diálogos que parecem ter sido escritos já a pensar numa adaptação cinematográfica (que não deve tardar muito).

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Snowdrops
A. D. Miller
Atlantic Books, 271 págs.
***

A dado momento, uma das personagens secundárias de Snowdrops resume tudo numa frase. Na Rússia não há histórias políticas, nem de negócios, nem de amor. «Só há histórias de crime.» O primeiro romance de A. D. Miller, que foi correspondente em Moscovo da revista The Economist, é precisamente uma história de crime em que o narrador, um advogado inglês que avaliza empréstimos bancários, se deixa envolver gradualmente, à medida que a atmosfera de imoralidade impune dos anos 90 (logo a seguir ao colapso da URSS e à liberalização caótica da economia russa) o envolve, acabando por comprometer os seus padrões éticos. Miller é particularmente eficaz na descrição do longo inverno moscovita, com os seus vários tipos de neve (e de frio), os cadáveres escondidos sob a brancura suja e as gradações do degelo. É também certeiro na anatomia de um sistema corrupto assente na fraude, na falsificação de documentos e nas mais mirabolantes formas de embuste. Entre restaurantes a flutuar no rio e datchas sumptuosas, seduzido por uma rapariga que lhe canta a canção do bandido, o narrador é ludibriado mas pelo menos não esconde que, no fundo, se deixou enganar.

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Pigeon English
Stephen Kelman
Bloomsbury, 264 págs.

Harri Opoku é um rapazinho de 11 anos que vive, com a mãe e a irmã mais velha, no nono andar de um bloco de apartamentos gigantesco, algures ao sul de Londres, enquanto espera que o pai e a irmã mais nova, ainda retidos no Gana, possam juntar-se ao resto da família. Ao contar a história de um crime ocorrido no bairro (a morte por esfaqueamento de um adolescente, à porta de uma loja de fast food), Harri vai mostrando a violência que germina nas franjas da sociedade inglesa, no seio das populações mais desfavorecidas, e que explode nas lutas entre gangues juvenis. O livro está escrito numa espécie de crioulo (pidgen), em que o inglês se mistura com palavras africanas e as mais variadas formas de calão. Enquanto se circunscreve ao quotidiano de jovens sem grandes perspetivas, ávidos de bens de consumo que lhes são inacessíveis (uns ténis de marca, um smartphone), Stephen Kelman dá boa conta do recado. Só que depois não resiste à grandiloquência (através dos disparatados monólogos de um pombo) e o efeito de surpresa desta obra de estreia desvanece-se. Embora com passagens fortes, este é sem dúvida o romance mais fraco shortlist de 2011.

[Textos publicados no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges