Um fado de Camané

Em geral, não gosto de fado. Nem do velho nem do novo (só da voz da Amália e das canções que lhe compôs o Alain Oulman). Mas gosto do Camané, das composições do Zé Mário Branco, das letras da Manuela de Freitas. Guerra das Rosas é excelente exemplo do que os três conseguem fazer, quando estão inspirados. E atentem nestes versos deliciosos, entre os 2’12” e os 2’25”: «Foste-me lendo o teu romance de amor / Sabendo que eu não gostava da história / No dia de o mandares para o editor / Fui ao teu computador / Apaguei-o da memória.»



Comentários

3 Responses to “Um fado de Camané”

  1. isabel ribeiro on Outubro 17th, 2010 9:41

    No comments. Just a big :) Gostei mesmo do “deletar” do romance.
    A minha falta de paciência para ouvir fado é imensa. Mas não perco o dedilhar da guitarra portuguesa. No entanto, Além de Camané, sempre gostei de Carlos do Carmo. Amália faz parte das referências desconfortáveis das minha memórias.
    Em 76, estive na Universidade de Gent, a estudar neerlandês. Aos fds ficávamos entregues a famílias (2 estudantes de nacionalidades diferentes por família: coube-me um espanhol como parceiro, estudante de belas artes), o que nos permitia viver (às vezes) a sua cultura e forma de estar. Tive sorte. Coube-me uma família da classe média-alta, algo eruditos e de uma simpatia extrema. E se já não gostava da Amália, nem de fado, aqui foi a pedrada no charco.
    De Espanha conheciam tudo. O Pedro baba-se de contente. De Portugal? Eusébio, Fátima e a famosa estrada que nos ligava ao coração da Europa. O famoso IP5, ainda no papel. Não queria acreditar. A senhora surge num rompante com um LP na mão, feliz por me mostrar que lá em casa habitava Amália. E tive que a ouvir!!!
    Ainda hoje temo que a Amália salte do Panteão e abra os braços num amplo obrigada, obrigada.

  2. leal maria on Outubro 22nd, 2010 0:09

    Correcção: Alain Oulman musicou (por oposição ao teu “compôs”) magistralmente poemas de grandes poetas portugueses, que a voz da Amália ( escopo e cinzel que tão bem esculpia de sublimação as humanas emoções) tão bem “emoldurou”.

    Deliciosos?? Fogoooo!! Um versinho de terceira categoria… a sério??
    Dá-me a impressão que por vezes queres fazer favores aos amigos!!??

    Versos que a Amália cantou:

    “O Fado nasceu um dia,
    Quando o vento mal bulia
    E o céu o mar prolongava,
    Na amurada dum veleiro,
    No peito dum marinheiro
    Que, estando triste, cantava,
    Que, estando triste, cantava.

    Ai, que lindeza tamanha,
    Meu chão , meu monte, meu vale,
    De folhas, flores, frutas de oiro,
    Vê se vês terras de Espanha,
    Areias de Portugal,
    Olhar ceguinho de choro.

    Na boca dum marinheiro
    Do frágil barco veleiro,
    Morrendo a canção magoada,
    Diz o pungir dos desejos
    Do lábio a queimar de beijos
    Que beija o ar, e mais nada,
    Que beija o ar, e mais nada.

    Mãe, adeus. Adeus, Maria.
    Guarda bem no teu sentido
    Que aqui te faço uma jura:
    Que ou te levo à sacristia,
    Ou foi Deus que foi servido
    Dar-me no mar sepultura.

    Ora eis que embora outro dia,
    Quando o vento nem bulia
    E o céu o mar prolongava,
    À proa de outro veleiro
    Velava outro marinheiro
    Que, estando triste, cantava,
    Que, estando triste, cantava.”

    José Régio

    Isto sim; é delicioso!
    Atenta nesta preciosa figura de estilo: “… E o céu o mar prolongava”

    O Camané, é um fadista de interpretações irrepreensíveis e com uma versatilidade que espanta (humanos). Mas este seu novo disco, é um regresso ao fado menor que canta os costumes. Esse fado não presta! A Amália eternizou-se a cantar David Mourão Ferreira; Camões; João Roiz de Castelo-Branco; o já citado José Régio; … e não a mariquinhas.

  3. José Mário Silva on Outubro 22nd, 2010 13:01

    “Olhar ceguinho de choro”: ora aí está o que para mim é um verso de terceira categoria.
    Mas é assim mesmo. A sua opinião é a sua opinião. A minha opinião é a minha opinião. A única diferença é que eu respeito a sua e não insinuo que só gosta de José Régio por ser seu amigo.

    PS – Só para que se sinta mais aliviado: nunca falei sequer com o Camané (nem com a Manuela de Freitas, autora da letra).

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges