Um jantar memorável

Onde – A Licorista (um restaurante muito em conta, na R. dos Sapateiros, Lisboa).
Quando – Uma noite da semana passada (quarta? quinta? o que é que isso interessa?)
Quem – Bastantes pessoas (aquilo a que os senhores da restauração chamam um grupo: mais de dez, menos de vinte).
Porquê – Ninguém faz a minímina ideia.
Como – É aqui que as coisas se tornam interessantes, como perceberá o leitor ao acompanhar o relato que se segue, por ordem cronológica (quase minuto a minuto), à maneira dos sites de futebol e de certos exercícios de maldade bloguística.
Ora então foi assim:

20:37 – Olho à volta: só três macacos à porta da Licorista. O resto da malta encara de forma um bocadinho elástica a expressão oito e meia.

20:52 – Os convivas lá chegam a conta-gotas: enregelados, alegres, atrasadíssimos. Tão portugueses.

21:00 – Entramos em cima da meia hora da praxe, as vozes a misturarem-se, uma procissão de casacos a atafulhar os cabides.

21:08 – Pacotes miniatura de manteiga abertos, pastéis de bacalhau (bem bons) e ninguém se atreve a fazer a pergunta: «Será que ele vem mesmo?»

21:10 – Sem se conseguir conter, a Isabel Coutinho faz a única pergunta que lhe acode ao espírito desde que jantou no Bairro Alto com o Paolo Giordano: «e então, acham que ele é sobredotado?» As pessoas disfarçam, fingem olhar para o telejornal, mas eu não escapo: «se já perguntaste uma vez, o que é que te custa perguntar outra?» Desdobro o guardanapo e coloco-o no meu colo, enquanto respondo: «Isabel, Isabel, é melhor esqueceres essa história do italiano, já te disse. Olha lá, por que é que não vês quem é que anda a dizer o quê no Twitter?» Os olhos dela iluminam-se e nunca mais ouvimos a sua voz, só o leve murmúrio das pontas dos dedos, matraqueando suavemente o ecrã táctil do iPhone.

21:19 – Francisco José Viegas continua com um ar exausto. Não é fácil, estar uma hora e meia ao lado de Maria José Morgado (o Darth Vader do F. C. P., a nemésis de Pinto da Costa), ainda por cima num debate literário.

21:24 – Os Booktailors passam este minuto a conspirar, com sorrisinhos melífluos, sobre tudo o que se passa no mundo dos livros em Portugal, na Europa, no Planeta Terra, no Sistema Solar, na Via Láctea e mais além. «Sabem que é que vai comprar a Far as Hell Publishers, a mais importante editora de Alfa do Centauro e arredores?» Toda a gente suspende as conversas, alguém manda baixar o Jornal Nacional da TVI. Resposta de Paulo Ferreira: «Pois bem, vejam amanhã no nosso blogue

21:32 – Começam a chegar os primeiros pedidos: costeletas de encher o prato, bacalhau com natas. O restaurante recebeu um importante prémio gastronómico pelo seu afamado Bacalhau à Braz. Previsivelmente, não há Bacalhau à Braz. Mas há bacalhau com grão. E essa mera possibilidade, prevista num canto da lacónica ementa, foi como que o detonador da chegada dele. Do próprio. Porque toda a gente sabe que Rogério Casanova só come bacalhau com grão, ao almoço e ao jantar, durante 365 dias por ano (366 nos bissextos).

21:35 – E eis que ele aparece. O mais parecido com isto que alguma vez vi foi uma aurora boreal (mentira). Mas acho que até uma aurora boreal coraria de vergonha, se andasse pela Baixa e se cruzasse com uma coisa assim. Coisa é a melhor palavra, realmente. Já assombro, embora seja uma palavra pequenina para descrever a descarga eléctrica que encheu de luz e pavor a Licorista, parece-me capaz de se aguentar à bronca. Vou resumir então a coisa ao mais minimalista dos inventários: sapatos Manolo Blahnik (com tacões agulha de dez andares e uma cobertura de cristais Swarowski, a desenhar um R num dos pés e um S no outro); um vestido metalizado com fechos em ouro, resultado de um brainstorming entre Jean-Paul Gaultier (depois de uma tarde a contemplar os operários nos estaleiros de Saint-Nazaire), o par Dolce & Gabbana (ressacado de uma festa onde as drogas tinham nomes de cometas) e Fátima Lopes, convalescente de uma operação plástica à sua franja. Por cima disto tudo: um top em angorá, cor fúchsia; um gorro de astracã; uma écharpe em caxemira com delicados padrões fractais; e um crachá branco com letras vermelhas, que diz: «Eu sei onde mora o Thomas Pynchon. Pergunte-me como».

21:38 – Enquanto se livra dos atavios, Rogério Casanova diz para todos: «Vou só ali à casinha. Já volto.» Observador atento, julgo ter sido o único a aperceber-me de que o rímel esborratado, mesmo por baixo dos olhos, replica de forma admirável os contornos, nem sempre firmes, do vasto delta do Zambeze.

22:10 – Rogério Casanova sai do WC transfigurado [como podem constatar no fim deste post]. Algumas pessoas já vão na sobremesa, há mesmo quem peça cafés. Impávido, Rogério Casanova senta-se, consulta o menu e insiste no mantra: «Bacalhau com grão».

22:50 – A previsibilidade, no entanto, termina ali. Nos últimos 40 minutos, mas não necessariamente por esta ordem, Rogério Casanova construiu uma caravela com palitos (velame = guardanapos), dançou sapateado em cima da mesa ao estilo do Lord of the Dance (conseguindo ser talvez um nadinha mais frenético do que o próprio Michael Flatley), recitou em voz alta e de cor os 53.478 caracteres do último artigo de James Wood para a New Yorker, desenhou na toalha de papel uma quimera sportinguista assustadora (cabeça de Romagnoli, corpo de Miguel Veloso, pés de Rodrigo Tiuí), fez um minuto de silêncio em memória do esfíncter de John Updike (sem se aperceber que o resto do pessoal se estava a, enfim, marimbar para isso), alinhou uns quantos números de prestidigitação em que a única coisa que desaparecia era o fio do seu raciocínio e repetiu 163 vezes a pergunta: «Já te disse que sei desarrincar uns anagramas porreiros?».

23:08 – O massacre continua. Rogério Casanova não pára, não abranda, não larga. Já faltou mais para alguém chamar a polícia.

23:21 – Bocas caladas. Apenas o barulho do multibanco a imprimir papéis para os que pagam com cartão. O restaurante todo – até mesmo as cadeiras, as mesas, as paredes e o painel de mármore com o «flagrante delitro» de Pessoa – parece tremer. O silêncio é semelhante ao que se segue aos grandes sismos, aos maremotos, aos apocalipses. Rogério Casanova está encostado à porta de vidro, olhando melancólico lá para fora, para o mundo, para a realidade, para tudo isso que nunca fica verdadeiramente nos livros.

23:34 – Casacos, chapéus-de-chuva, rituais de pré-despedida, uma gargalhada como o pontapé que se dá nas brasas, a ver se ainda vale a pena reacender a fogueira.

23:35 – Não vale a pena.

23:37 – As luzes começam a apagar-se dentro da Licorista. Por muito subtil que seja a linguagem gestual dos empregados, o que eles estão a fazer, repetindo n vezes «Boa noite, boa noite, até à próxima», é enxotar-nos. E enxotados saímos para a rua, à espera do flash que eternize este memorável jantar.

23:49 – E agora, tchanan, tchaNAN, TCHANAN, eis a fotografia de grupo, tirada por um dos empregados de mesa (o mais paciente dos seres humanos, garanto-vos), imagem que desvenda por fim o que faltava desvendar:

Rogério Casanova é o segundo a contar da direita. Sim, esse mesmo. O da gravatinha berrante e carinha de totó. Sim, a improvável mistura do homem da Regisconta com o Pedro Miguel Ramos. É ele. O único, o verdadeiro, o maior.
Depois despedimo-nos calorosamente e fomos todos para casa.



Comentários

19 Responses to “Um jantar memorável”

  1. joão gaspar on Março 9th, 2009 16:43

    náá, aquilo é o empregado d’a licorista e foi o rogério casanova que tirou a foto.

  2. ente lectual on Março 9th, 2009 17:50

    como diria o bigodaças: que calças, que talento!

  3. eu sei a verdade sobre o casanova on Março 9th, 2009 20:07

    A palavra-chave é

    Photoshop

  4. oo on Março 9th, 2009 21:59

    o fim de um mito. amen.

  5. a on Março 9th, 2009 22:24

    é um texto ridículo. não quer escrever uma epopeia? a começar in media res com o pedido do bacalhau por exemplo

  6. babita on Março 10th, 2009 3:49

    That’s not him.

  7. ad on Março 10th, 2009 11:19

    Não que consiga esmiuçar os píxeis ali na zona da cara, mas parece igualzinho ao boneco que vinha na entrevista do Ípsilon.

  8. oo on Março 10th, 2009 17:38

    parece que as sete pessoas que estavam desesperadas por o conhecer, já o conhecem. ok.

  9. cinco dias » É do meu browser, ou já só se vai à Pastoral Portuguesa por convite? on Março 10th, 2009 17:45

    […] Pastoral Portuguesa por convite? 10 de Março de 2009 por Morgada de V. Jantou bacalhau com grão na companhia de uma dúzia de eleitos e acabou fotografado. Contra todas as expectativas, Rogério Casanova parece-se com Rogério […]

  10. Gue on Março 10th, 2009 19:37

    Bravo!! Um opíparo banquete, digno das bodas de Camacho! Espero que as “costoletas” tenham sido tenrinhas. FJV levou fruta e café com leite?

  11. 32 « It is so illogical, you know, about being a smurf. on Março 10th, 2009 21:20

    […] bem, nada a apontar. Mas sinceramente acho que teria muito mais piada ele não ter comparecido a esse jantar. Enfim, um homem tem de comer, não é? nota: o Paulo não disse aquilo de forma invejosa, ele até […]

  12. Afonso on Março 10th, 2009 21:43

    A única coisa que aborrece – porque isto é um aborrecimento – é que o R.C. está a conseguir o que quer (ou se não quer, então gosta): reproduzir a uma escala bairrista o fenónemo do anonimato à la Thomas Pynchon, de quem é leitor e admirador confesso.

    E o pormenor do Pastoral Portuguesa só para convidados ou lá o que é, é quase tão delicioso como a palhaçada da Zita – antiga militante do partido comunista – ao abrir uma livraria para elitistas.

    E outra coisa que se comprova: o anonimato voluntário, para quem anda na boca do povo, é um marketing brutal. Não é, Herberto?

    Quem fez bem foi o Luis Graça que se barimbou para estas lides bloguistas.

    Quem faz mal sou eu, que apesar de tudo e principalmente de todos gosto sempre de vir aqui passar os olhos.

    Somos muito pequeninos.

    Afonso

  13. Alexandra Malheiro on Março 10th, 2009 22:07

    21:32: Santo Deus… “costOletas” vem das “costOlas” do bicho?

  14. José Mário Silva on Março 10th, 2009 23:40

    Alexandra, já está emendado.

  15. Ricardo Morris on Março 11th, 2009 10:39

    Entretanto, o rapaz eliminou o blogue e o twitter. Deve ter tido uma crise existencial por ter aparecido numa foto.

  16. J.Urbano on Março 11th, 2009 11:56

    Pobre Rogério que não conseguiu manter-se incógnito por muito tempo, nisso não acompanhou o mestre Pynchon, mas pior, tinha logo de aparecer num jantar com o mainstream das revistas e suplementos literários lusos, o que é deveras humilhante e nada ao estilo do mestre Pynchon. Mas o brutal Rogério não poderia levar a coisa muito longe, pois em vez de um romance ou de uma obra de ficção, que lhe daria estatuto para permanecer na sombra, apareceu nos escaparates das livrarias uma Pastoral surripiada, ainda por cima, de um blogue, vejam só o desconcerto da coisa, e nós à espera de um original, mas nada de originais, a arca parece estar vazia… Mas segundo fontes fidedignas aquele que aparece na fotografia com a dita gravata e parecido com o boneco que fizeram dele, não é o verdadeiro, o autêntico Rogério, mas um proxeneta manhoso do Seixal enviado de propósito para o dito jantar, tudo afinal não passou de uma partida e o autêntico Rogério passeia-se entre milionários americanos a delapidar-lhes os bens que restam (dada a crise financeira, económica e do que mais se lembrarem, pelo que uma autêntica mina literária): as mulheres, as filhas, as empregadas, as empresas, os clubes de futebol americano como o Sporting do Minesota, em suma, tudo que mexe, qual Casanova do século XXI.

  17. Pop Paulo on Março 11th, 2009 14:07

    Partindo do que sei (Pastoral Portuguesa lida até à página 19, o que é muito pouco; pastoralportuguesa.blogspot.com lida infrequentemente; textos na Ler até à data todos lidos), arrisco dizer que o Rogério Casanova é mesmo um Rogério Casanova, e não o pseudónimo do colectivo que participou no jantar e na divulgação exaltada da fotografia. Porque também sou leitor atento dos blogs, críticas e crónicas, e até dos livros desses confrades que rodeiam esse estranho ser, sinto-me seguro do que afirmo. Cedo intuí que o Sousa Homem era um pseudónimo do Viegas, acredito mais que por relaxamento dele do que por brilhantismo meu, a voz e o imaginário de ambos é muito coerente.
    Nenhuma destas vozes e imaginários à volta do Casanova têm uma afinidade com o que se descobre na voz e no imaginário do próprio. Será uma grande surpresa ser confrontado mais tarde com o contrário do que acredito agora. É tão longe quanto levo a minha especulação.

  18. oo on Março 11th, 2009 21:24

    e não é que o menino acabou com o blogue sem o ter anunciado ao gupo dos 7 fãs que lhe promoveram uma jantarada? brilhante (se bem que de uma lógica algo embaraçosamente trivial – apareço em público, acabo com a bloga).

  19. Nota Mental « Shakira Kurosawa on Março 12th, 2009 0:02

    […] 12, 2009 Envergar umas calças cor de Borgonha na próxima aparição pública, por esta razão. Posted by Belmiro Oliveira Filed in […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges