Um laboratório para o mal

Contos
Autora: Hélia Correia
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 111
ISBN: 978-989-641-059-9
Ano de publicação: 2008

«Dos contos que escrevi, só gosto destes», assume Hélia Correia, com desarmante sinceridade e veemência, na nota final do volume que a Relógio d’Água acaba de publicar, reunindo apenas cinco prosas curtas e uma quase novela da autora de Lillias Fraser. Num país em que não faltam escritores a publicar demais, ou com pouco critério, louve-se a coragem de reduzir a própria obra ao essencial, num movimento de exigência e depuração que estamos habituados a ver nalguns poetas (sendo Herberto Helder um caso limite) mas bastante raro nos ficcionistas – curiosamente, Carlos de Oliveira, o exemplo que nos ocorre de imediato, era também um poeta.
Mais do que na simples eliminação de contos menos bons, essa exigência de Hélia Correia consigo mesma reflecte-se na matéria textual das ficções sobreviventes. Cada frase é trabalhada com um extremo cuidado, cada metáfora tem a intensidade justa, cada substantivo sinaliza uma certeza semântica indiscutível (quando uma personagem se depara com o «primeiro livor da madrugada», sabemos que aquela luminosidade não podia ser descrita de outra forma). É como se as palavras fossem feitas de poeira e alguém ameaçasse abrir uma janela, por onde entrasse um vento destruidor. A prosa de Hélia Correia paira sobre as coisas, ampliando tanto a beleza como o horror. E acede obliquamente às zonas mais escondidas da experiência humana, animada por um impulso tão visceral que chega a parecer mediúnico.
Nos seis textos deste livro, ressurgem algumas das obsessões temáticas de HC: o universo feminino, marcado pelo apelo da maternidade e respectivos fantasmas; o esmagamento de um certo mundo rural, desfasado do seu tempo; a mitologia clássica; ou a resiliência das superstições e dos preconceitos. Em Sul, o astrólogo Joan de Sória vive resguardado da peste num torreão de adobe e pedra, de onde contempla as «tarefas despóticas dos homens», empurrando-os para o fim do mundo, atrás de quimeras nascidas da sua suposta capacidade de ler o que dizem os astros, quando o que o céu lhe oferece é «a mudez dos corpos luminosos». De Capadores, pode dizer-se que é um diálogo impossível entre dois homens impossíveis, resquícios de um passado à beira da extinção (ou talvez já extinto). Eirene é uma bela parábola: a deusa da Paz, estátua enterrada debaixo de «séculos e séculos de pó», volta à superfície e torna-se humana, depois de lhe arrancarem do colo o cego deus da abundância, descobrindo então o pavor da guerra num lugar em que a entropia destrutiva triunfou e já não se escuta «a encantadora duração das sílabas helénicas». Escrita originalmente em inglês, Doroteia é uma história de miséria e obscurantismo, na órbita de Emily Brontë; enquanto Nessa noite oferece a mais fantástica das explicações para o nascimento dos heterónimos de Pessoa, na célebre noite de 8 de Março de 1914.
Com 54 páginas, A Compaixão aproxima-se da cadência das narrativas mais longas de Hélia Correia e é atravessada por uma energia negra, que devora a protagonista e a projecta contra as suas pulsões mais fundas. Como diz uma das personagens, «tudo começa no desgosto», porque o desgosto é «um laboratório para o mal».

Avaliação: 8,5/10

[Versão ligeiramente ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges