Um leitor de e-books, please

Para quem faz da leitura intensiva a sua actividade principal, há nos dias que correm uma tentação tecnológica quase óbvia: o leitor de e-books. Eu até nem sou muito de gadgets. Nunca me deslumbrei com os telemóveis topo de gama, tipo BlackBerry à la Barack Obama ou iPhone com trezentas aplicações diferentes (dos programas que permitem controlar o orçamento mensal, cheios de gráficos e dicas, ao miraculoso Brushes, que nos torna Picassos instantâneos e «deu» a Jorge Colombo a sua primeira capa da New Yorker). Nunca pedi ao Pai Natal o último portátil da Apple nem um GPS para me orientar nas ruas de Lisboa ou nas rotundas da província. Contento-me com o que é básico, com o que é elementar, com o que é mais simples. Tanto assim que comprei um smartphone há cerca de um mês – com ecrã táctil, mais as milhentas funções que os smartphones hoje nos oferecem (mesmo os baratuchos) – e ainda mal o utilizei. A verdade, confesso, é que não tive tempo de ler o manual de instruções. E porquê? Porque a minha profissão é ler intensivamente, sim, mas livros, não manuais de aparelhos electrónicos.
E isto leva-me de volta à questão dos e-books. Com a quantidade de livros que as editoras me fazem chegar todos os dias, a minha casa assemelha-se cada vez mais a um labirinto de papel. Estantes ajoujadas, pilhas periclitantes no corredor, caos bibliográfico. Por muito que goste de me sentir uma ilha rodeada de livros por todos os lados, há um limite físico para esta invasão imparável (sobretudo quando não posso dispor, como alguns felizardos, de um apartamento à parte para a biblioteca pessoal). Um dia, deixará de haver espaço. Mesmo. E antes que esse dia chegue, tenho que tomar medidas. Uma é ser mais selectivo quanto ao que entra. Outra é expulsar o que nem sequer devia ter entrado. E a terceira, a mais simples, é justamente comprar um leitor de e-books. Para fazer download das obras que me interessam mas não faço questão de ter nas prateleiras, claro. Mas sobretudo para evitar um crime ecológico: a impressão, em resmas de folhas A4, dos ficheiros pdf com que as editoras revelam aos críticos literários os romances que só vão para a gráfica umas semanas depois.
Mais do que uma tentação, o leitor de e-books transformou-se para mim numa necessidade. Espero aliás levar um, carregadinho, já nas próximas férias (com a vantagem adicional de diminuir substancialmente o peso das bagagens).

[Texto publicado na secção “A minha tentação” do Semanário Económico]



Comentários

12 Responses to “Um leitor de e-books, please

  1. Ernesto Rodrigues on Junho 24th, 2009 19:23

    Esperem pelo Plastic Logic. Isso é que vai ser qualquer coisa! Infelizmente só deve ser comercializado para o ano…

  2. afonso on Junho 24th, 2009 23:20

    Concordo com tudo o que foi dito, mas enquanto alguém que além de leitor é um “livrómano” resta-me libertar um genuino “argh”…

  3. Gerana Damulakis on Junho 25th, 2009 1:36

    Parecia que eu estava lendo sobre mim mesma. Só que solucionei, em parte, os livros mandados à mancheia pelas editoras. Todos os que não me interessam, que jamais me levarão à leitura, muito menos à resenha, mando para o sebo. No começo, dá pena de alguns, vai que um dia me arrependo etc, mas é o único jeito. Aconteceu uma única vez: comprei um livro que havia recebido da editora e mandado para o sebo, mas foi descuido, julgamento apressado.
    O livro físico é, para mim, uma necessidade. Preciso pegar nele, cheirar as páginas, até beijar a capa se for o caso de um êxtase total com a obra.

  4. venancio on Junho 25th, 2009 6:36

    Ernesto, esse Plastic Logic (que desconheço) é assim tão… tão…?

    Conta mais. Quero saber se merece ir fazendo um pé de meia.

  5. António on Junho 25th, 2009 9:49

    Por entre a bagunça reinante de formatos, extensões e formatações díspares e comprometidamente incompatíveis, o e-reader afirma-se já como uma inevitabilidade. No mínimo, será uma ferramenta extraordinária de trabalho.

    A conjugação da sua existência com esse grande resistente que é o livro físico parece-me menos clara. Idilicamente, a compra de um livro deveria proporcionar o acesso ao conteúdo equivalente em formato digital, libertando o leitor da escolha impossível entre a funcionalidade e a tradição, báculos dissonantes mas estranhamente complementares. Então poderia continuar a refastelar-me numa poltrona, sorvendo a luz natural ou tacteando a superfície granular das páginas que escorrem entre os meus dedos, para no momento seguinte me virar para o fiel leitorómetro digital que tão bem ficaria no fundo de uma sacola ou de uma pasta, acompanhando-me por viagens ou as linhas do metro, facilitando o acesso a dicionários e enciclopédias.

    Começo a acreditar que o ónus do leitor vigilante é não permitir que a indústria e o mercado façam destas duas invenções humanas dois meios incompatíveis, mutuamente exclusivos; encerrados um para o outro e sectarizados em lobbies de partidários e interesses.

  6. Jorge Colaço on Junho 25th, 2009 10:02

    Importa-se de precisar as implicações da seguinte frase no texto: «das obras que me interessam mas não faço questão de ter nas prateleiras»? Obrigado.
    JC

  7. José Mário Silva on Junho 25th, 2009 10:17

    Jorge,

    Respondendo directamente à sua pergunta: certos ensaios ou textos técnicos que me interessam (por serem necessários para um qualquer trabalho que tenha em mãos) mas que provavelmente não voltarão a ser consultados. Se quiser, explico ainda melhor: há livros (todos os de poesia, a maioria dos romances) que não concebo sem um suporte físico. E há outros que são pura informação utilitária, que não precisam do sortilégio da capa e contracapa, da textura do papel. Esses podem ir directamente para a memória do leitor de e-books, sem passarem pela acumulação de pó das prateleiras.

  8. afonso on Junho 25th, 2009 10:25

    Agreed.

  9. Jaime Bulhosa on Junho 25th, 2009 11:07

    Conheço uma história de alguém que tinha o mesmo problema que tu (livros a mais em casa). Resolveu a questão, deixando os livros que não queria em diversas paragens de autocarro e em algumas delas ficava a observar que tipo de pessoas pegava nos livros. Pode até ser um estudo sociológico engraçado.

    Podes também resolver este problema, entregando os livros a mais no depósito da Pó dos Livros. 😉

  10. João on Junho 25th, 2009 13:10

    E doar às bibliotecas de Lx? Eu faço isso quando odeio profundamente um livro. :)

  11. Jorge Colaço on Junho 25th, 2009 15:10

    José Mário Silva, muito obrigado pela resposta..
    Podemos então, com base nela, admitir a existência de leitores que, por não necessitarem de ler livros técnicos, pelas mais diversas razões, ou outro tipo de textos úteis (no sentido instrumental) – e eu incluiria o ensaio do lado «nobre», embora perceba que o JMS tenha referido apenas «certos ensaios» -, que não cheguem a «precisar» de ter um destes, certamente fascinantes, aparelhómetros.
    Não quero, com isto, chegar a lado nenhum. Apenas observo que este mecanismo continuará a dividir, talvez mais profundamente, os consumidores de livros e aqueles que, por sorte deles ou por meu azar, conservam aquilo a que chamo, anacronicamente talvez, o amor da literatura.
    JC

  12. Um leitor de e-books? Não, obrigada. « o absurdo on Junho 27th, 2009 10:55

    […] Para fazer download das obras que me interessam mas não faço questão de ter nas prateleiras, claro. Mas sobretudo para evitar um crime ecológico: a impressão, em resmas de folhas A4, dos ficheiros pdf com que as editoras revelam aos críticos literários os romances que só vão para a gráfica umas semanas depois. [continuar a ler] […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges