Um país rafeiro e com pulgas

o apocalipse dos trabalhadores
Autor: valter hugo mãe
Editora: QuidNovi
N.º de páginas: 182
ISBN: 978-989-628-065-9
Ano de publicação: 2008

O cão surge a páginas 29. Vindo do nada, põe-se a seguir Maria da Graça rua fora (“afeiçoara-se aos tornozelos dela”) e logo o baptizam “portugal”, talvez por ser 5 de Outubro ou porque não passa de um “ridículo rectângulo castanho” (como o país). Sem forçar a metáfora, valter hugo mãe mantém o canídeo perto do centro da acção, cheio de pulgas, focinho caído, fazendo com que a sua melancolia atravesse e contamine toda a narrativa, até às linhas finais em que se cala, “apenas a ver” o culminar da tragédia, “tão fugazmente inteligente, intensamente ternurento e absolutamente imprestável”.
Assim são, também, as personagens que se movem na claustrofóbica cidade de Bragança: a dita Maria da Graça, mulher-a-dias que sonha com as portas do Céu e vai despejando lixívia na sopa do marido (um marinheiro bronco que anda por fora meses a fio); Quitéria, a amiga com quem partilha confidências sexuais nas traseiras do prédio, carpideira profissional a 50 euros o velório (“salário de médico”); o senhor Ferreira, patrão de Maria da Graça, fascinado pelos grandes artistas (Mozart, Rilke, Goya) por serem “o que de mais perto existe da humanidade”, mas nem por isso menos capaz de exercer o seu poder, abusando da mulher que tanto lhe trata da casa como da libido; e um ucraniano com nome de futebolista (Andriy Shevshenko), amante de Quitéria, convicto de que “para abrir caminho na ferocidade de um país alheio” é preciso alcançar a “felicidade das máquinas”, a fazer pizzas ou carregando pedras nas obras, qualquer coisa que permita fugir da grande fome que ainda paira sobre Korosten, cidade natal perdida na neve, onde uma mãe derrotada e um pai paranóico deixaram de lhe escrever cartas.
À sua maneira, cada uma destas personagens aspira a uma espécie de paraíso (o amor impossível, a felicidade carnal, a aniquilação dos fantasmas pessoais, o dinheiro poupado a custo no “país das flores”), mas há uma violência maior que os desmobiliza, empurrando-os para o vazio, “aflitos de tristeza como se viessem à tona para respirar, afundando-se de seguida em pesadelos e sobressaltos contínuos”.
Pela articulação subtil das várias vozes e linhas narrativas, a prosa de valter hugo mãe vai registando cada um desses sobressaltos, com um fulgor poético raro na literatura portuguesa contemporânea: “caramba, um rio ave, como se um rio pudesse voar com peixes e barcos e tudo lá dentro e passar-nos por cima da cabeça sem se entornar.”
Mesmo escrito só com letras minúsculas, que aceleram e precipitam a leitura (como explicou valter em entrevista ao Público), este é um texto todo ele maiúsculo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 72 da revista Ler]



Comentários

4 Responses to “Um país rafeiro e com pulgas”

  1. Tim_booth on Setembro 20th, 2008 1:05

    Já tinha lido na LER a crítica, devo dizer-te que me deixaste como o Portugal (perdoa-me a péssima piada) em pulgas para ler o livro.

    Cheers

  2. Bibliotecário de Babel – Lembrete on Setembro 20th, 2008 15:21

    […] a nada (18h00), na FNAC do Colombo, apresento o romance o apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe. Haverá também música com o projecto cabessa lacrau, de que valter faz […]

  3. pam on Setembro 23rd, 2008 17:15

    O seu livro e o seu projecto musical estão ambos repletos de uma enorme qualidade e diferença. O projecto musical, que ouvi pela primeira vez, é belo e surpreendente.

  4. Maravilhas do Facebook | Bibliotecário de Babel on Agosto 10th, 2009 22:21

    […] se calhar o valter já acabou mesmo o próximo romance, desde já um aguardadíssimo sucessor de o apocalipse dos trabalhadores. Eu soube disto em tempo real. E «em tempo real» é mesmo, literalmente, em tempo real. Não […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges