Um poema de Hugo Claus
GRAVO-TE NO PAPEL
(do poema O Grilo de Pedra)
Minha mulher, meu altar pagão,
que toco e afago com dedos de luz,
meu bosque viçoso onde hiberno,
sinal neurótico, terno, impudico,
gravo o teu bafo e o teu corpo no papel
em papel de música pautado.
E contra o teu ouvido sussurro horóscopos felizes
e falo-te de viagens à volta do mundo
com paragem na Áustria ou coisa do género.
Mas apesar dos deuses e dos signos do Zodíaco
a felicidade eterna também se cansa,
e eu não tenho casa, não tenho cama,
nem flores para te oferecer nos teus anos.
Gravo-te no papel
enquanto inchas e desabrochas como um pomar em Julho.
[do livro Een huis dat tussen nacht en morgen staat, Uma casa entre a noite e a alvorada, trad. de Ana Maria Carvalho, revista DiVersos n.º 13, Junho de 2008]
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