Um poema de Inês Lourenço

SIRENE

Bom é ter poucos amigos
poetas, para não ter de
trair a lisura do afecto
ou do texto. Mesmo esses poucos
chegam a nenhuns, se não
conseguimos elogiar epifanias
recessas, queixas piedosas ou
banalidades inócuas. Um amável
neófito muito badalado, ou um sénior
de vários prémios
literários, esperam deliciar-nos
com o verbo no cada vez mais
exíguo palco do poema
impresso. Assim ficamos sós
diante da própria e feroz espera
da negada surpresa. Como quem
adormece na ambulância
apesar da sirene.

[in A disfunção lírica, &etc, 2007]



Comentários

2 Responses to “Um poema de Inês Lourenço”

  1. C on Fevereiro 10th, 2008 11:48

    Bom é comentar poetas de renome, gozar pensar entrar nas suas pessoalíssimas palavras. Envolvimento distante.Inócuo.Isento do registo da profissionalidade.Liberto do dever de elogio.Bom é ter dois amigos poetas.O pão e as palavras de outros.Vidas.

  2. manuel a. domingos on Fevereiro 10th, 2008 12:51

    quanto a mim é um poema muito bom. gosto particularmente dos versos iniciais.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges