Um poema de Paulo Henriques Britto e outro de Ronald Polito
Paulo Henriques Britto:

Man in a Chair, de Lucien Freud (1983-85)
MAN IN A CHAIR
Esperar sentado, mas sem
relaxar os músculos. Mãos
tensas nas coxas como quem
prestes a se levantar. Não
como quem, à espera, descansa.
E sim como se encurralado
na cadeira. Sem esperanças
nem expectativas. Sentado
na cadeira como quem não
espera exactamente nada.
Sem certezas, com exceção
da única, e indesejada.
Ronald Polito:

Two Figures, de Francis Bacon (1953)
ENTRE DOIS HOMENS
Para a boca, os dentes, o arco do
torso e do meio das
coxas, e de novo os dentes,
gemido ou riso, e ódio.
Poder dizer ou morder, arfando,
luz de tule entre dois
peitos, escorrendo, pés de prata
no leito, a tratar, celebrar, contra o
borrão de fora, adentro, e revirar
um corpo, cruzado num
salto, jorro, abraço de
pluma, chumbo.
Matar, amar, testemunhos,
liquefação, em cada milímetro
de domínio, cada roçar em desatino,
vendas de névoas,
membro a membro.
Iguais, no arrepio, risco.
Desfigurado, aqui, o que passou
e virá.
[in revista Relâmpago, n.º 23, Outubro de 2008]
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