Um poema (em três partes) de Zbigniew Herbert

PORQUÊ OS CLÁSSICOS

1.
no quarto livro da guerra do Peloponeso
Tucídedes conta-nos entre outras coisas
a história da sua mal sucedida expedição

entre os longos discursos dos chefes
batalhas cercos pestes
uma densa rede de intrigas de diligências diplomáticas
o episódio é como uma agulha
na floresta

a colónia grega Anfípolis
caiu nas mãos de Brasidos
porque Tucídedes chegou atrasado com o socorro

devido a isso foi condenado pela sua cidade
ao exílio eterno

os exilados de todos os tempos
conhecem que preço é esse

2.
os generais das guerras mais recentes
se algo semelhante lhes acontece
choram de joelhos perante a posteridade
e louvam o seu heroísmo e inocência

acusam os subordinados
os colegas invejosos
os ventos desfavoráveis

Tucídedes diz apenas
que tinha sete barcos
que era Inverno
e que navegou com celeridade

3.
se a arte tivesse uma jarra quebrada
por assunto
uma pequena alma quebrada
com uma grande pena de si própria

o que permaneceria de nós
seria o choro dos amantes
num pequeno e sujo hotel
quando o papel de parede amanhece

[in Escolhido pelas Estrelas, apresentação e versões de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, 2009]



Comentários

2 Responses to “Um poema (em três partes) de Zbigniew Herbert”

  1. nd on Novembro 15th, 2009 19:20

    É para ler.

  2. tatiana faia on Novembro 18th, 2009 17:51

    É para ler mas este poema que José Mário Silva aqui deixou não augura nada de bom em relação à qualidade da revisão do texto e mesmo em relação ao conhecimento do tradutor daquilo que traduziu. Nunca conheci nenhuma personagem que na antiguidade clássica desse pelo nome de Tucídedes nem nunca ouvi falar de nenhum general espartano que desse pelo nome de Brasidos. Em grego Tucídides chamava-se Tucídides e não Tucídedes e é assim que se chama em português e Brasidos dá pelo nome de Brásidas, e nem sequer são nomes que transliterados para português tenham duplas formas, são estas que aqui indico e mais nenhumas. A História da Guerra do Peloponeso não devia ser um livro assim tão exótico e desconhecido que não se saiba que foi escrito por Tucídides (e não Tucídedes). Se o revisor ou o tradutor não sabiam, deviam ter resolvido a questão de uma forma bastante simples, bastava consultar uma coisa que se chama «Índice de Nomes Próprios Gregos e Latinos», é uma questão de rigor, nem parece da Assírio.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges