Um poema (inédito) de Luís Filipe Cristóvão

LOUVOR E SIMPLIFICAÇÃO DE ARMANDO SILVA CARVALHO

Já não vou escrever uma rosa na janela fechada
que são os teus olhos a querer adormecer junto ao
parque verde da cidade, nem vou ser o novo grande
poeta que tu um dia esperaste que eu fosse:
este poema não é meteorológico mas eu consigo
adivinhar o vento e a chuva todas as manhãs,
tal como conheço os críticos e sei que não sirvo
para gatinhar noutra casa que não seja a do teu coração.

Até tu já adivinhas as tantas coisas que faço
para te inventar um sorriso, e tão fácil me parece
quando o consigo, tanto quanto foi nascer assim,
fora de mão, e para o resto do sempre ter os pés
à margem dos caminhos das certezas. Sim, reconheço:
sou um poeta sem qualidades para os líricos do meu tempo
e só a minha utopia não lamenta as tantas palavras
que desconheço para me dizer de um outro lado.
Não alcancei o fingimento, não sei se vou ou não por aí,
tenho a liberdade livre dos aldeões pacientes,
o sossego de poder acordar junto de ti.

Não exijo mais nada, como te disse,
adivinhei a maneira certa de adormecer
com o barulho aterrador das águas.

Luís Filipe Cristóvão é editor, livreiro e blogger.



Comentários

One Response to “Um poema (inédito) de Luís Filipe Cristóvão”

  1. Rui Almeida on Outubro 9th, 2009 19:49

    Sem querer estar a levantar qualquer tipo de questão extemporânea, lembro q já há um poema de José do Carmo Francisco (in Leme de de Luz, de 1993 – edição «Sol XXI Poesia»; http://aspirinab.com/jose-do-carmo-francisco/louvor-e-simplificacao-de-armando-silva-carvalho/ ) com este mesmo título.
    Acrescento q sou amigo de ambos os autores.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges