“Um roçar pelas pernas, uma frase”

Sempre me fascinou o modo como a escrita depende, em Hélia Correia, de certas condições meteorológicas. A autora de Lillias Fraser confessou-o várias vezes: só consegue trabalhar os seus livros quando chove (o que seria óptimo para uma autora belga ou escocesa, mas é problemático para quem vive em paragens tão meridionais como as nossas).
Hélia voltou a falar do assunto num texto publicado na Time Out Lisboa, texto de uma delicadeza rara em que equipara o lugar que ocupam, na sua vida, a escrita e os gatos. Começa assim:
«Há sujeições que posso tornar públicas e essas são os gatos e a escrita. Devo dizer que reconheço nas duas entidades semelhanças. Talvez os gatos e a escrita tenham vindo do mesmo ovo que um deus fertilizou. Instalaram um trono vitalício dentro da minha vida desde cedo. Incorporei-os tão intensamente que nem sei onde acabo e eles começam. Há uma simbiose que pertence à mais baixa biologia. Mas a palavra simbiose é mal escolhida. Eles viveriam muito bem sem mim. Eu, sem eles, é que não. E sabem isso. Sabem perfeitamente que dominam.
Comportam-se ambos com igual sobranceria. Vêm se querem, quando querem, para que os sirva, mas se sou eu a convocá-los, não me ligam. Se entendem que lhes devo abrir a porta, chamam às horas mais desconfortáveis. Lá me levanto, às quatro da manhã, ou para escrever ou para deitar whiskas no prato. A retribuição é coisa pouca: um roçar pelas pernas, uma frase. E eu, ciente da minha condição, renunciando à dignidade humana, agradeço a bondade do incómodo.»
O texto completo pode ser lido aqui.
Comentários
4 Responses to ““Um roçar pelas pernas, uma frase””
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Que belo texto. Também sou apaixonado por gato, e eles são bem o que a autora (que não conheço) diz…
“Tantos nomes que não há para dizer o silêncio”. Deve haver um gato na vida de Herberto Helder. Bicho de ar manso, felino macio e discreto move-se em passadas de absurdo silêncio.Quase um bailado no gesto e no olhar. Mudo, Incorpora o espaço em miradas azuis ou verdes. Não se submete. Altivo, apropria-se da casa que, posteriormente, há-de ‘emprestar’ ao dono, já servil.Arranha.
o texto da hélia c. é maravilhoso.
Venho “roçar pelas pernas” sem arranhar
Muito obrigada
pelo Incómodo
destA
renÚncia…
ronronronron