Vento destruidor

Num jornal, a função dos copydesks é salvar os jornalistas. Depois dos textos colocados em página, esses perscrutadores atentos voltam a ler as prosas alheias, tantas vezes escritas à pressa para cumprir prazos de fecho. São eles que confirmam estar tudo bem: a lógica interna das frases, a sintaxe, a grafia das palavras estrangeiras. São eles que corrigem erros ortográficos ou de concordância (antes ainda do revisor), incorrecções factuais, lapsos freudianos.
A função, repito, é salvar os jornalistas. Mas também acontece o contrário. No seu afã cheio de boa vontade, por vezes alteram o que não deviam alterar. E foi isso que se passou com o meu texto sobre o livro Contos, de Hélia Correia, publicado na última edição do Expresso (ver post anterior). Onde eu escrevera, citando a autora, «primeiro livor da madrugada», apareceu «primeiro livro da madrugada». De livor para livro vai uma grande distância: a que separa um vocábulo raro de uma palavra de uso comum. E a que separa uma bela imagem, escolhida pela autora (não por mim), de um disparate que deturpa e estropia essa mesma imagem. A correcção é ainda mais absurda porque torna ininteligível a referência ao facto de «aquela luminosidade» não poder ser descrita de outra forma. Mais: antes desta nódoa involuntária no meu texto, eu afirmo que «cada frase [de Hélia Correia] é trabalhada com um extremo cuidado» e que «cada substantivo sinaliza uma certeza semântica indiscutível», cuidado e certeza que os leitores do livro terão julgado não se aplicarem no meu caso. Cúmulo da ironia, tive que cortar da versão impressa a frase que se seguia ao erro: «É como se as palavras fossem feitas de poeira e alguém ameaçasse abrir uma janela, por onde entrasse um vento destruidor.»
Infelizmente, saber que não fui eu a abrir a janela (pelo menos desta vez) não me serve de consolo.



Comentários

2 Responses to “Vento destruidor”

  1. venancio on Dezembro 30th, 2008 21:40

    Zé Mário,

    Onde a tua dor já vai, dirão alguns dos que nada comentaram.

    Essa dor não esquece, digo-to eu, que só agora dou com isto.

  2. Luís Graça on Janeiro 2nd, 2009 7:24

    Pior foi o que aconteceu a uma famosa bebida portuguesa, que era para se chamar “Livor Beirão” e não se chamou por causa de uma ‘gralha’.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges