Um western gaúcho

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O brasileiro Tabajara Ruas veio às Correntes com um duplo estatuto: escritor e cineasta. Ontem à noite, exibiu no Auditório Municipal Netto e o domador de cavalos, filme que escreveu e realizou (com assistência de Ondjaki). Apesar das cores desbotadas, “por causa de uma incompatibilidade entre o DVD que eu trouxe e o sistema de leitura das imagens daqui”, o público entusiasmou-se e comoveu-se com o fôlego desta espécie de western passado nas paisagens imensas do Rio Grande do Sul, em 1835. Narrativamente bem construído, em torno da lenda de um neguinho que foi morto pelo patrão por ter perdido uma corrida de cavalos, despertando a revolta e vingança dos outros escravos, a película tem cenas de tirar a respiração (o duelo num campo com formigueiros a perder de vista, por exemplo) e longas sequências de chibatadas que fazem lembrar o martírio de Cristo no filme de Mel Gibson (ainda assim com menos sangue). Ao meu lado, uma senhora levou o tempo todo a tapar os olhos e a limpar as lágrimas, enquanto murmurava: “ai que horror, mas isto não acaba?” Já as breves aparições do poeta poveiro Aurelino de Sousa, que antes da sessão não escondia o orgulho por ter feito parte do elenco, foram sendo recebidas com aplausos.



Comentários

3 Responses to “Um western gaúcho”

  1. pedro vieira on Fevereiro 15th, 2008 20:24

    isso está tudo muito bem mas insistir em fazer cartazes com o tipo de letra comic sans dá vontade de chicotear toda uma equipa técnica.

  2. fallorca on Fevereiro 16th, 2008 19:00

    agora aturem-no, penitenciem-se 😉

  3. Saint-Clair Stockler on Fevereiro 17th, 2008 12:29

    Pedro Vieira: concordo inteiramente com você! Comic Sans num cartaz não dá! Empresta uma aparência muito pouco profissional à coisa.

    Tabajara Ruas faz parte do grupo de escritores do Sul, mais precisamente Rio Grande do Sul. O RS é um Estado brasileiro um tanto peculiar: possui uma forte cultura local, com suas tradições centenárias fortemente arraigadas no imaginário popular. Além disso, a literatura do RS é um tanto “à parte”, justamente porque tem muita força no Estado. É claro que há muitos autores que se tornaram, digamos, “universais” dentro do Brasil. O caso mais exemplar é o do Érico Veríssimo. Mas existe um grupo – no qual Tabajara Ruas está inserido – que tem uma muito maior projeção dentro do próprio Rio Grande do Sul do que fora. Não é, evidentemente, o caso de se lamentar, porque são ótimos escritores. Tabajara Ruas, Assis Brasil, e mais uma meia dúzia de grandes autores.

    Sobre o filme: me parece que ele é baseado numa lenda do Sul chamada “O negrinho do pastoreio”. Quem tiver curiosidade, pode lê-la aqui:

    http://sitededicas.uol.com.br/folk08.htm

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges