Uma baleia subindo o rio Amazonas

Eis a explicação, em jeito de prefácio, que Miguel-Manso resolveu introduzir na nova edição, pela Mariposa Azual, do seu primeiro livro, Contra a Manhã Burra:

«UMA BALEIA SUBINDO O RIO AMAZONAS

Usei num destes poemas uma imagem roubada a uma notícia lida na imprensa. Dava conta de uma baleia encontrada a mais de mil quilómetros do oceano Atlântico, no coração da Amazónia. Volto à baleia, antepondo-a como introdução a esta 2.ª edição, para me apropriar da metáfora e com ela indicar com um pouco mais de precisão as minhas coordenadas actuais.
Assinalo a imponderabilidade desse trajecto, o erro estreito, rigoroso, o desnorteio, a morte por encalhamento num banco de areia do rio Tapajós, como se no coração das trevas – “Oh! Estas minhas incorrigíveis alusões culturais” – quem sabe se por acidente ou por intenção, a água doce, as surpresas ribeirinhas. Reparo só agora, voltando à notícia, que a cidade brasileira mais próxima (150 km) tem o nome de Santarém.
Não passou um ano entre a publicação deste primeiro livro, em edição de autor, e a sua reedição. É por isso difícil posicionar-me perante ele. Inclino-me, para já, para um crescente desassossego, antevendo cada vez maiores reservas face a alguns destes textos. Dizem-me que é bom sinal. O que talvez não o seja é dar por mim em um eirado para o qual não vinha preparado: o da poesia portuguesa.
Nesta edição levei a cabo a amputação do primeiro texto. Pareceu-me, como se diz em botânica (ou em jardinagem?) que esse poema, de um verso só, cresceu ali como um “ladrão”, termo que designa o rebento, ou a ramada, que se avantajou demasiado em relação à uniformidade da copa e lhe suga a seiva. Afinei depois um ou outro verso, corrigi alguns delitos e retirei a maior parte das notas, deixando apenas aquela que faz referência à minha descoberta de Alî Quli Jabbedâr.
Passou quase um ano, há um livro de permeio, o desconforto progride. Mas sinto-me – até eu, também eu – capaz de me declarar solidário com estes poemas.»

Como quem não quer a coisa, fui à primeira edição resgatar o tal poema amputado. É este:

N.º 0

sonho japonês néon reflectido em vidro duplo e mar



Comentários

One Response to “Uma baleia subindo o rio Amazonas”

  1. marta furtado on Julho 30th, 2009 20:28

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