Uma boa mentira

«Existem muitos casos de animais artistas. O mais antigo que se conhece data de 1806 quando Hokusai, criador da famosa xilogravura “Grande Onda de Kanagawa”, mergulhou as patas de um galo em tinta vermelha e fê-lo andar por uma folha de papel, depois acrescentou uns traços a azul e chamou-lhe “Folhas à deriva no rio Tatsuta”. Nos anos 20 Nadezhda Ladygina-Kohts fez várias experiências com chimpanzés pintores. Nos anos 40 os laboratórios de Yerkes testaram as capacidades de composição. Quando se dava uma folha de papel com marcas em três dos cantos eles punham uma marca no quarto canto. Segundo Morris, a pintura é uma actividade calmante para estes símios. Salvador Dali dizia que a mão do chimpanzé é quase humana e a mão de Pollock é quase animal.
– “Também há quem pinte com larvas mergulhadas em pigmento.”
– Com elefantes, gatos, ramos de árvore que abanam ao vento. O pintor francês Roland Dorgelès fez umas pinturas mergulhando a cauda de um burro em tinta que depois assinava com o nome de Boronali. Uma desla, “Pôr-do-sol sobre o Adriático” exposta no Salão dos Independentes em 1910, é famosa. Uma pintura pode ser feita de qualquer maneira, pouco importa. Como provocação, como ruptura, como inovação.
André Masson passava fome e drogava-se para perder a consciência do que fazia.
– “E o Pollock apanhava grandes bebedeiras para ser mais espontâneo.”
Há também o caso dos artistas inventados. O Centro Reina Sofia dedicou recentemente uma exposição ao pintor cubista Josep Torres Campalans, companheiro de Braque e Picasso que nutria uma peculiar antipatia para com Juan Gris. Afinal este artista nunca existiu, foi uma criação do escritor Max Aub que, de modo a dar maior veracidade à farsa, pintou ele mesmo, com a ajuda de um sobrinho menor, mais de uma centena de obras assinadas por Campalans. Aub escreveu uma biografia do inexistente pintor, onde para além de uma rigorosa cronologia e relatos de vida, não faltaram algumas fotografias. Uma delas mostra Jusep ao lado de Picasso.
Qualquer idiota consegue dizer a verdade, mas é preciso talento para saber contar uma boa mentira, dizia o escritor Samuel Butler.»

[in 30 Gramas, de Leonel Moura, LxXL, 2009]



Comentários

4 Responses to “Uma boa mentira”

  1. fallorca on Julho 29th, 2009 20:34

    «Uma delas mostra Jusep ao lado de Picasso» Olha o piar da gralha, e não é ave… Josep, en català

  2. José Mário Silva on Julho 29th, 2009 22:26

    Jorge,

    Eu transcrevi tal e qual como vem no livro. Como escrevo na crítica que sairá sábado no ‘Expresso’, o problema deste livro do Leonel Moura é o pouco cuidado com a linguagem. Há várias gralhas, frases trôpegas, pontuação às três pancadas. Faltou, como falta em tanta ficção que hoje em dia se publica, quem pegasse no texto e o tratasse com esmero.

  3. fallorca on Julho 31st, 2009 14:45

    Lerei, ou lá… ou aqui 😉

  4. José Mário Silva on Julho 31st, 2009 16:02

    Se leres aqui, lá para terça-feira, lerás uma versão maior, sem os cortes que tive que fazer na impressa.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges