Uma Casa para esquecer

A Casa do Esquecimento
Autor: Fernando Dinis
Editora: Teorema
N.º de páginas: 210
ISBN: 978-972-695-783-6
Ano de publicação: 2009
O primeiro romance de Fernando Dinis traz na página de rosto a menção ao Prémio Fnac/Teorema 2008 que lhe foi atribuído, entre «cerca de uma centena de candidaturas de elevada qualidade», por um júri de que fizeram parte Carlos da Veiga Ferreira (editor), Dóris Graça Dias (crítica literária) e Rui Zink (escritor). Mesmo sabendo que estas distinções nem sempre são sinónimo de excelência literária, nada nos prepara para o desastre que este livro é. Além de lamentarmos que a Teorema admita uma nódoa assim no seu exigente catálogo, sobra-nos uma perplexidade: se o vencedor foi este romance desconchavado e fátuo, como seriam as restantes «candidaturas de elevada qualidade»? Só de pensar nisso, uma pessoa treme.
A Casa do Esquecimento segue um modelo clássico: duas histórias paralelas, contadas em capítulos alternados, com algumas simetrias e um mistério latente (cuja resolução acabará por fundir as linhas narrativas, ao descobrirmos que a segunda é como que o corolário da primeira). Fernando Dinis domina as regras do suspense e gere bem a curiosidade do leitor, pelo menos até este se aperceber que tanto acicate é só uma manobra de dilação, uma forma de prolongar expectativas que nunca se cumprem totalmente.
O romance gira todo à volta de uma ideia que está longe de ser original – a noção de que o Destino se pode esquecer de nós, mas acaba sempre por nos apanhar na sua rede – e serve aqui de mero pretexto para um exercício de estilo oco. O estilo, de resto, é o principal problema de Fernando Dinis, mais ainda do que a falta de espessura das personagens, os diálogos frouxos ou a banalidade das atmosferas kubrickianas de pacotilha.
Para começar, a sintaxe é tosca e vítima de mil e uma contorções. Abundam os hipérbatos, os adjectivos empolados («exorbitante», «estrondoso», «fulgurante») e as imagens de mau gosto («era agradável sentir a sua saliva, que escorregava da sua boca para a minha como uma lágrima que desce sobre um rosto arredondado»). Nas frases deste livro – em que se sente a ausência absoluta de um trabalho de edição, capaz de minimizar os seus defeitos – há sempre palavras a mais ou palavras a menos; e raras vezes as palavras certas.
Às tantas, o protagonista está a «suar literalmente» e o leitor apercebe-se de que a única arte em que Fernando Dinis se destaca é a arte da redundância. Nunca na literatura portuguesa se concentraram tantos pleonasmos como neste romance: «chegava sempre em primeiro lugar que todos os outros»; «um homem solteiro (…) que nunca casou»; «sempre que alguém é despedido do seu local de trabalho»; «gorda e balofa»; «brilho reluzente»; «o fim derradeiro»; etc.
Fernando Dinis ainda pode vir a tornar-se um escritor interessante, mas, para seu bem, este livro merecia ter ficado muito quietinho (isto é, convenientemente esquecido) na gaveta onde ele diz guardar as suas experiências falhadas.
Avaliação: 2/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]
Comentários
9 Responses to “Uma Casa para esquecer”
- Maravilhas da paternidade em 8 de Fevereiro de 2012
- Poesia para respirar em 8 de Fevereiro de 2012
- A grande machadada em 8 de Fevereiro de 2012
- Bicentenário de Dickens em 7 de Fevereiro de 2012
- Pó dos Livros Vintage em 7 de Fevereiro de 2012
- Rui vs. Fernão em 7 de Fevereiro de 2012
- Hatchet Job of the Year em 7 de Fevereiro de 2012
- Uma micronarrativa de Andréa Del Fuego em 7 de Fevereiro de 2012
- Teia de desencontros em 7 de Fevereiro de 2012
- ‘Encontros na Poesia’ em 6 de Fevereiro de 2012


Receba por e-mail
Facebook
Twitter
Delicious
DoMelhor
feed RSS
email diário






Peço ao autor deste blogue assim como aos seus leitores que participem neste projecto: http://portaria-59.blogspot.com/…e- portugal.html
cumprimentos a todos.
Zé Mário, pensei muito antes de deixar aqui a minha opinião. E peço-te que faças o exercício de me ver não como alguém que trabalha numa editora, mas antes como uma ex-jornalista e pessoa que muito estima o espaço nos jornais. Falo-te do espaço físico, aquele que te faz escolher entre editar uma coisa ou outra (ao contrário do blog onde se pode escreve o que se quer, onde o espaço é ilimitado). Mas voltemos ao que te queria dizer. A mim custa-me que a vontade de deixar bem claro o quão maus se acha um livro seja superior à tomada de consciência da importância do espaço. E passo a explicar-me. Nesta mesma edição do Actual, onde escreves esta crítica (que não contesto porque não li o livro e porque tenho os teus juízos em muito boa conta) dás duas páginas a uma entrevista a este autor. E aqui eu não posso deixar de pensar no porquê desta entrevista. Quando a comecei a ler achei que se tratava de algo extraordinário, porque o espaço é tão escasso que só algo muito bom o justificaria. E senti-me defraudada, enquanto leitora, pela entrevista e pelo espaço que lhe deste.
Um beijo
Inês
Obrigado pela tua observação, Inês.
Não estás sozinha na tua perplexidade, pelo que aproveito a deixa para esclarecer uma aparente esquizofrenia. De uma maneira ou de outra, várias pessoas me perguntaram por que motivo escrevi no Actual o perfil de um escritor que, umas páginas mais à frente, desanco na área de crítica literária. A razão é simples: não misturo as duas coisas. Para a secção Frontal, dedicada a artistas que se destacam nas respectivas áreas, abordo o Fernando Dinis vencedor do Prémio FNAC/Teorema (distinção que merece, só por si, um tratamento jornalístico). Já na secção de livros, analiso o romance de Fernando Dinis que venceu o Prémio FNAC/Teorema. O facto de eu ter detestado o livro não invalida o facto de ele ter sido o vencedor do prémio. Ou seja, o interesse jornalístico em mostrar quem é, o que faz e de onde vem Fernando Dinis não desaparece, até porque a minha opinião é apenas a minha opinião (não coincidente com a de Carlos da Veiga Ferreira, Dóris Graça Dias, Rui Zink e talvez muitos outros leitores que descortinarão na obra os méritos que eu não descortinei).
Dito isto, é evidente que, ao sugerir a publicação do perfil de Fernando Dinis, eu estava disponível para gostar do livro. Na realidade, eu queria muito ter gostado do livro, até porque simpatizei pessoalmente com o Fernando Dinis. Se eu tivesse dado três estrelas e escrito um texto vago (como alguns fazem quando não querem dar opinião sobre um livro, para não se comprometerem ou para não ferirem os sentimentos do autor), ninguém acharia estranho. Mas prefiro lidar com essa estranheza a deixar de dizer aquilo que penso.
Beijo,
ZM
nunca te vi ser tão agressivo face a uma obra, josé mario.
é o primeiro romance do autor. é natural ter falhas.
ganhou pelo seu mérito, errou também a editora ao não ter feito um trabalho de edição e de revisão…
admiro mt mais o Fernando Dinis, apesar das falhas, do que um José Luis Peixoto no prémio Daniel Faria o ano passado em que um elemento do júri era o seu editor, com interesse claro (económico) em que ele fosse o vencedor.
nessa altura, não te vi aqui tão escandalizado…
santa paciência.
Já fui mais «agressivo», João. Acredita. Tão agressivo que o autor em causa me disse, uns anos depois, que tivera sorte em não me cruzar com ele naquela altura, porque o mais certo era atropelar-me ou dar-me um soco.
Quanto à comparação com o José Luís Peixoto, não faz sentido nenhum. Primeiro, porque é um bom livro de poemas. Segundo, porque a candidatura ao prémio foi feita com pseudónimo; o editor só descobriu que o vencedor era o JLP no momento em que abriram o envelope.
sim sim. quero mesmo acreditar que o jorge reis-sá não sabia (ou pelo menos não reconheceu) quem estava ali…
as edições Quasi eram boas era com o Valter Hugo Mãe. agora só pensam numa coisa: dinheiro e mais dinheiro.
quero ver quem ganha este ano. ai quero quero.
Há alguma evidência de que nos concursos e prémios literários o júri leia (ou, pelo menos, folheie) as obras a concurso?
Obrigado.
agora é que o José Catarino falou bem…
Obrigada por me teres respondido. Como deves calcular não ponho em causa a tua crítica. Aliás tenho-te em excelente conta enquanto jornalista e crítico literário. Compreendo a tua explicação mas continuo a achar que, dadas as limitações que os jornais cada vez mais têm, não se justifica dar tanto espaço a um assunto/pessoa.
Aproveito para dizer ao senhor João Almeida que as editoras não são instituições sem fins lucrativos. Não trabalho na Quasi nem sequer conheço o seu editor mas posso-lhe garantir que para ser possível a edição de autores como o valter hugo mãe, a Quasi necessita editar outros livros, porventura com menos qualidade, mas com mais potencial comercial. Deve-se passar o mesmo na sua profissão. Quantas vezes tem de fazer coisas que não gosta tanto para que lhe seja possível fazer outras que lhe dão verdadeiro prazer?