Uma casa para o Senhor Valéry
«Quando entramos na Rua da Saudade [em Alfama] podemos descobrir uma ausência de matéria, um vazio urbano que nos leva a visão até à margem Sul. Já quando percorremos a Rua de São Mamede o vazio é-nos dado como a falta de uma muralha alta que suportava terreno», explica Hélder Nascimento na memória descritiva do seu projecto de casa, feito a pensar no Senhor Valéry, uma «personagem com alguns problemas de identidade» e que, para os contornar, «põe em prática ideias que de tão racionais, muitas vezes, se tornam absurdas». Mais do que uma casa, este é um edifício que se atravessa, marcado pelo percurso público que une as duas ruas e assinala diferentes percepções do tempo, incluindo a paragem num pátio onde uma escultura de Rui Chafes sugere a dicotomia «peso/leveza». Unidas por uma biblioteca que define a organização da casa, as áreas privadas ficam na cota mais alta e incluem um «espaço secreto» – aberto sobre o rio, a Baixa e o Bairro Alto – de onde o Senhor Valéry pode contemplar a cidade.
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso, como caixa deste artigo]
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