Uma das palavras mais curtas

Derrocada
Autor: Ricardo Menéndez Salmón
Título original: Derrumbe
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 176
ISBN: 978-972-0-04511-9
Ano de publicação: 2010

Em Promenadia, cidade costeira imaginária (mas muito parecida com a Gijón onde nasceu e vive Menéndez Salmón), há um serial killer à solta. Um assassino metódico que lê Montaigne e Kafka, mata com frieza clínica e deixa sempre um sapato desemparelhado da vítima anterior como marca autoral. Manila, um dos cinco detectives que perseguem o criminoso, não ignora o alcance do que tem entre mãos: «Estamos a tratar do Mal, com maiúscula. Uma das palavras mais curtas; uma das viagens mais longas». Não muito depois, relembrará aos colegas uma citação de Thomas Hobbes: «No dia em que vim ao mundo, a minha mãe pariu gémeos: eu e o meu medo.»
É justamente desse Mal com maiúscula e do medo que ele espalha à sua volta, como veneno, que se alimenta este romance perturbador, segundo volume de uma trilogia que impôs Menéndez Salmón como um dos mais interessantes escritores espanhóis da actualidade. O primeiro volume, A Ofensa, sobre um soldado dos exércitos de Hitler que suspende os «vínculos com a realidade» depois de assistir a um massacre de inocentes, foi publicado pela Porto Editora em 2009, quase em simultâneo com a edição em Espanha, pela Seix Barral, do livro que fecha a trilogia, El Corrector (O Revisor), uma derradeira reflexão sobre o mal enquanto entidade omnipresente no nosso tempo, com os atentados de 11 de Março na estação de Atocha em fundo.
Se Derrocada começa num registo de thriller hiper-violento, elíptico, de frases curtas e imagens brutais, «usando a linguagem como se fosse um machado», depressa percebemos que a Salmón não interessa o horror circunscrito a uma pessoa (o assassino e o rasto das suas abominações) mas o modo como a ameaça da violência pode destruir, a partir de dentro, uma comunidade. Surge então uma história paralela que ecoa e amplifica a do serial killer. É a saga dos Arrancadores, três rapazes que se entregam a um niilismo nascido do tédio, sem objecto concreto nem ideologia, mera revolta pela revolta, cheia de raiva contra a sociedade da abundância e do espectáculo. Depois de colocarem agulhas em garrafas de leite e de misturarem estricnina na água das fontes públicas, levam a cabo o atentado total, a destruição do Corporama, parque temático gigantesco com a forma do corpo humano, símbolo da «feira de simulacros» em que o mundo se transformou.
No final, não há saída para o negrume, não há redenção pessoal ou colectiva. O detective Manila transforma-se naquilo que era suposto combater e a verdade mais dura, mas também mais lúcida, surge num dos cadernos escritos pelo assassino: «O mal não precisa de prova ontológica, nem de redução ao absurdo, nem de fé ou de profetas. (…) É o bem que precisa de um porquê, de uma causa, de um motivo. É o bem que, na realidade, constitui o mais profundo dos enigmas.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 89 da revista Ler]



Comentários

One Response to “Uma das palavras mais curtas”

  1. A Severino-Seve on Abril 25th, 2010 17:11

    Seve disse….

    Gostei tanto do anterior livro deste autor (A OFENSA), creio que o seu primeiro livro, que sofri uma tremenda desilusão com este……..quando à pagina 70 ainda não consigo visualizar uma história, nem saber o que estou a ler………….será melhor desistir

    Seve

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges