Uma Feira a duas velocidades

Já outros o disseram e eu assino por baixo. Este ano, há algo de esquisito, de bizarro, na organização territorial (chamemos-lhe assim) da Feira do Livro de Lisboa. Se nas últimas edições a LeYa já tinha construído uma espécie de Feira dentro da Feira, os condomínios privados (chamemos-lhes assim) agora multiplicaram-se. A Porto Editora também tem a sua praça, muito na linha do que fez a LeYa; a Presença não se fechou mas criou uma zona verde (como a cor dos seus materiais promocionais); e a Babel inventou aquele túnel escuro por fora e abafado por dentro (estreito, apertadinho, vagamente claustrofóbico) que mais parece uma metáfora do país. Neste último caso, com a agravante de o túnel aspirar literalmente os visitantes que começam a subir a alameda esquerda, para quem vem do Marquês, deixando às moscas os três ou quatro pavilhões que tiveram o azar de ficar em frente ao devaneio arquitectónico do grupo dirigido pelo presidente da APEL (o que não deixa, convenhamos, de ser significativo; e, se não condenável, pelo menos questionável).
Será que todos os pavilhões deviam ser iguais, como eram há dez anos? Não sei. Mas a Feira do Livro sempre se distinguiu por ser um espaço onde as assimetrias entre as grandes editoras e as pequenas se esbatiam. Todos tinham direito ao seu espaço, proporcional ao respectivo catálogo e volume de negócios. Hoje, há claramente uma burguesia da edição, a dos grandes grupos açambarcadores de espaço e arquitectonicamente exibicionistas, em contraste com o resto das editoras proletárias, reduzidas a uma uniformidade que a APEL impõe só a alguns.
O certo é que há dois pesos e duas medidas, duas Feiras distintas, sobrepostas mas não coincidentes, o que cria uma estranheza a que eu, frequentador há mais de 30 anos, duvido que me venha a habituar.



Comentários

9 Responses to “Uma Feira a duas velocidades”

  1. Francisco Agarez on Maio 2nd, 2011 11:07

    Completamente de acordo. Acho extremamente feliz a analogia com os condomínios fechados (têm segurança à porta e tudo!) Quanto ao babélico túnel, pareceu-me um longo clister. E a crescente proliferação de banquinhas de tudo e mais alguma coisa que não livros, certamente com a louvável intenção de chamar pessoas à feira, talvez recomendasse a transferência desta para Entrecampos (com a devida autorização daquele senhor que tenta subornar vereadores mas é absolvido). Ontem fui à feira e a certa altura vi um razoável ajuntamento de pessoas à volta de uns guarda-sóis (guarda-chuvas seria mais correcto chamar-lhes). Interroguei-me sobre quem seria o autor que estava a dar autógrafos com tão generosa lista de espera e aproximei-me, curioso: era uma senhora a cantar o fado.

  2. Safaa Dib on Maio 2nd, 2011 11:17

    Bem dito. Entristece-me ver o estado a que a feira do livro chegou. E depois há toda uma série de pequenos detalhes que também mudaram para pior…

  3. Olinda Melo on Maio 2nd, 2011 11:23

    Boa crítica. É tudo isso.Felizmente o horário já contempla as pessoas que querem lá na hora do almoço.Porque antes era uma coisa bizarra.

  4. José Manuel Chorão on Maio 2nd, 2011 15:51

    Totalmente de acordo.
    Ao fazer do livro um negócio semelhante ao dos refrigerantes ou detergentes, ao rodear o livro de toda esta palhaçada a que chamam Animação Cultural, estão a matar a galinha dos ovos de ouro.
    A Feira, assim, enoja-me. E deixo de lá ir. Não estou para aturar o avacalhamento dos livros que estes empresários modernos entenderam fazer.
    Não passam de uns betinhos de colarinho branco, que aplicam aos livros as regras de negócio e marketing que aprenderam lá na sua universidadezinha de betos.
    Sugiro que voltem lá para os seus bancos, empresas, televisões e tralha semelhante e que deixem os livros em paz.
    Para que nós, os que amam os livros, possamos deles disfrutar sem ter de aturar o insuportável pivete… do Channel N.5.

  5. Hugo Rodrigues on Maio 4th, 2011 15:45

    Parece-me natural e inevitável que os grandes grupos editoriais (à escala portuguesa) tragam também para a Feira do Livro a sua vantagem competitiva em termos de estrutura.

    Quando se nivela tudo por baixo e se impede a concorrência de funcionar a bem da preservação do pequeno comércio ou do que seja, quem se lixa é sempre o consumidor final.

    As pequenas editoras que usem outras vantagens competitivas, que também as têm, como por exemplo vender livros melhores e/ou menos conhecidos.

  6. RC on Maio 5th, 2011 13:12

    Parece-me que o Hugo Rodrigues tem muita razão. Se sou cliente do velho tasco do bairro, onde se canta o fado e há comida caseira, não vou deixar de lá ir só porque ao lado abriu um bar ultra moderno ou um restaurante de fast food. Os espaços diferenciados (e atenção que a Porto Editora usa os mesmos pavilhões que todas as outras editoras) dão à Feira coisas que ela não tinha e chamam à Feira gente que antes não a visitava. E isso não impede ninguém, senão por preconceito, de ir aos pavilhões das pequenas editoras. Eu vou e gosto, eu vou e compro. Ah e também prefiro as queijadas de Sintra aos cupcakes.

  7. BVS on Maio 5th, 2011 14:13

    Estranho e entristeço-me com estas declarações… Se dantes tinhamos uma feira vazia, que fazia pena a quem lá ia, agora temos animação e originalidade. Parecem os putos que quando sofrem um golo agarram na bola e dizem “Agora ninguém mais joga porque a bola é minha”.
    A Feira hoje é melhor para todos e os numeros comprovam o que digo (mais vendas e mais pessoas a ler).

  8. Francisco Agarez on Maio 5th, 2011 17:52

    Bem, se há números e eles são tão bons como diz BVS (e certamente BVS sabe do que fala), eu calo-me já. Pois não é verdade que os números falam sempre mais alto?

  9. Cardoso on Maio 6th, 2011 14:43

    Com tanta parvoíce nestes comentários, difícil saber o que destacar. Mas fico-me pelo Hugo Rodrigues, que a certa altura diz “As pequenas editoras que usem outras vantagens competitivas, que também as têm, como por exemplo vender livros melhores”.
    Boa Feira.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges