Uma Feira a duas velocidades
Já outros o disseram e eu assino por baixo. Este ano, há algo de esquisito, de bizarro, na organização territorial (chamemos-lhe assim) da Feira do Livro de Lisboa. Se nas últimas edições a LeYa já tinha construído uma espécie de Feira dentro da Feira, os condomínios privados (chamemos-lhes assim) agora multiplicaram-se. A Porto Editora também tem a sua praça, muito na linha do que fez a LeYa; a Presença não se fechou mas criou uma zona verde (como a cor dos seus materiais promocionais); e a Babel inventou aquele túnel escuro por fora e abafado por dentro (estreito, apertadinho, vagamente claustrofóbico) que mais parece uma metáfora do país. Neste último caso, com a agravante de o túnel aspirar literalmente os visitantes que começam a subir a alameda esquerda, para quem vem do Marquês, deixando às moscas os três ou quatro pavilhões que tiveram o azar de ficar em frente ao devaneio arquitectónico do grupo dirigido pelo presidente da APEL (o que não deixa, convenhamos, de ser significativo; e, se não condenável, pelo menos questionável).
Será que todos os pavilhões deviam ser iguais, como eram há dez anos? Não sei. Mas a Feira do Livro sempre se distinguiu por ser um espaço onde as assimetrias entre as grandes editoras e as pequenas se esbatiam. Todos tinham direito ao seu espaço, proporcional ao respectivo catálogo e volume de negócios. Hoje, há claramente uma burguesia da edição, a dos grandes grupos açambarcadores de espaço e arquitectonicamente exibicionistas, em contraste com o resto das editoras proletárias, reduzidas a uma uniformidade que a APEL impõe só a alguns.
O certo é que há dois pesos e duas medidas, duas Feiras distintas, sobrepostas mas não coincidentes, o que cria uma estranheza a que eu, frequentador há mais de 30 anos, duvido que me venha a habituar.
Comentários
9 Responses to “Uma Feira a duas velocidades”
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 29 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 22 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 16 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 9 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 2 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 25 de Novembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 18 de Novembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 11 de Novembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 4 de Novembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 28 de Outubro de 2016


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Completamente de acordo. Acho extremamente feliz a analogia com os condomínios fechados (têm segurança à porta e tudo!) Quanto ao babélico túnel, pareceu-me um longo clister. E a crescente proliferação de banquinhas de tudo e mais alguma coisa que não livros, certamente com a louvável intenção de chamar pessoas à feira, talvez recomendasse a transferência desta para Entrecampos (com a devida autorização daquele senhor que tenta subornar vereadores mas é absolvido). Ontem fui à feira e a certa altura vi um razoável ajuntamento de pessoas à volta de uns guarda-sóis (guarda-chuvas seria mais correcto chamar-lhes). Interroguei-me sobre quem seria o autor que estava a dar autógrafos com tão generosa lista de espera e aproximei-me, curioso: era uma senhora a cantar o fado.
Bem dito. Entristece-me ver o estado a que a feira do livro chegou. E depois há toda uma série de pequenos detalhes que também mudaram para pior…
Boa crítica. É tudo isso.Felizmente o horário já contempla as pessoas que querem lá na hora do almoço.Porque antes era uma coisa bizarra.
Totalmente de acordo.
Ao fazer do livro um negócio semelhante ao dos refrigerantes ou detergentes, ao rodear o livro de toda esta palhaçada a que chamam Animação Cultural, estão a matar a galinha dos ovos de ouro.
A Feira, assim, enoja-me. E deixo de lá ir. Não estou para aturar o avacalhamento dos livros que estes empresários modernos entenderam fazer.
Não passam de uns betinhos de colarinho branco, que aplicam aos livros as regras de negócio e marketing que aprenderam lá na sua universidadezinha de betos.
Sugiro que voltem lá para os seus bancos, empresas, televisões e tralha semelhante e que deixem os livros em paz.
Para que nós, os que amam os livros, possamos deles disfrutar sem ter de aturar o insuportável pivete… do Channel N.5.
Parece-me natural e inevitável que os grandes grupos editoriais (à escala portuguesa) tragam também para a Feira do Livro a sua vantagem competitiva em termos de estrutura.
Quando se nivela tudo por baixo e se impede a concorrência de funcionar a bem da preservação do pequeno comércio ou do que seja, quem se lixa é sempre o consumidor final.
As pequenas editoras que usem outras vantagens competitivas, que também as têm, como por exemplo vender livros melhores e/ou menos conhecidos.
Parece-me que o Hugo Rodrigues tem muita razão. Se sou cliente do velho tasco do bairro, onde se canta o fado e há comida caseira, não vou deixar de lá ir só porque ao lado abriu um bar ultra moderno ou um restaurante de fast food. Os espaços diferenciados (e atenção que a Porto Editora usa os mesmos pavilhões que todas as outras editoras) dão à Feira coisas que ela não tinha e chamam à Feira gente que antes não a visitava. E isso não impede ninguém, senão por preconceito, de ir aos pavilhões das pequenas editoras. Eu vou e gosto, eu vou e compro. Ah e também prefiro as queijadas de Sintra aos cupcakes.
Estranho e entristeço-me com estas declarações… Se dantes tinhamos uma feira vazia, que fazia pena a quem lá ia, agora temos animação e originalidade. Parecem os putos que quando sofrem um golo agarram na bola e dizem “Agora ninguém mais joga porque a bola é minha”.
A Feira hoje é melhor para todos e os numeros comprovam o que digo (mais vendas e mais pessoas a ler).
Bem, se há números e eles são tão bons como diz BVS (e certamente BVS sabe do que fala), eu calo-me já. Pois não é verdade que os números falam sempre mais alto?
Com tanta parvoíce nestes comentários, difícil saber o que destacar. Mas fico-me pelo Hugo Rodrigues, que a certa altura diz “As pequenas editoras que usem outras vantagens competitivas, que também as têm, como por exemplo vender livros melhores”.
Boa Feira.