Uma micronarrativa de István Örkény

DIGNIDADE PROFISSIONAL

Eu sou um carácter forte!
Sei dominar-me.
Não o deixava transparecer, mas estavam em jogo o trabalho de longos anos, o reconhecimento do meu talento, todo o meu futuro.
– Sou um artista imitador – disse.
– O que é que sabe? – perguntou o director.
– Imito o canto dos pássaros.
– Infelizmente – fez um gesto de renúncia com a mão –, isso já passou de moda.
– Como? O arrolhar da rola? O chilrear do milheiro nos caniçais? O gorjeio da codorniz? O grito da gaivota? O cantarolar da cotovia?
– Passou – disse o director aborrecido.
Aquilo magoou-me. Mas penso que não o mostrei.
– Adeus – disse eu com cortesia, e saí a voar pela janela aberta.

[in Histórias de 1 minuto, vol. 1, trad. de Piroska Felkai, Cavalo de Ferro, 2004]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges