Uma noite micénica

«Lembro-me muito bem desse ano de 1968. Eu morava em Entrecampos, perto da linha do comboio. Ia de café em café, bebendo alguns bagaços e escrevendo o livro na minha cabeça. Passeando-me e escrevendo. Cafés do Campo Pequeno, da Avenida da República, de Entrecampos, por fim a famosa Grã-Fina na Rua de Entrecampos. Chegava a casa exausto e como não tinha mesa no quarto de estudante (nesse tempo os estudantes estudavam nos cafés) era sentado numa cadeira e escrevendo sobre uma mala de viagem que transcrevia para o papel o que acabava de escrever na minha cabeça. Belos tempos onde não havia computador, máquina de escrever eléctrica, só as palavras nuas à minha espera.
A capital nesse tempo era aberta, copófona, surreal. Não se tinha medo de morrer à saída de um bar. Havia livros exactos, clandestinos e enterrados vivos, e pessoas que falavam muito bem deles. Caves de boémia, como por exemplo A Alga, onde uma vez encontrei ao mesmo tempo o Luís Pignatelli e o Carlos Amaral Dias. Lisboa nesse tempo tinha uma noite micénica.»

[Excerto do «Posfácio sem soutienenhum», in Os Três Seios de Novélia, de Manuel da Silva Ramos, Dom Quixote, 2008]



Comentários

One Response to “Uma noite micénica”

  1. Luís Graça on Setembro 17th, 2008 0:33

    E quando o Manuel da Silva Ramos não ia aos copos, iam os copos ao Manuel. Sou testemunha. Sessão no Centro Nacional de Cultura. Curso de Literatura Maldita. Sessão sobre o álcool. Um dos livros era “Debaixo do vulcão”, de Lowry. No final, tivemos direito a um “mexicano” de Sombrero a servir tequilla. Também havia tinto.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges