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Uma notícia falaciosa

Na edição de ontem do Diário de Notícias, foi publicada uma notícia sobre a suposta «polémica» entre mim e José Saramago. O texto, assinado por um antigo camarada de redacção, era tão confuso e infeliz que preferi não o comentar, para que não aumentasse ainda mais o ruído em torno de um assunto que não merece tamanho bruaá. Acontece que muitas pessoas me telefonaram, enviaram SMS ou e-mails, perplexas e curiosas com o «caso Saramago» que o DN divulgara e que elas, naturalmente, não conseguiam compreender lá muito bem.
Para colocar uma pedra sobre o assunto, publico agora a dita notícia (já que não encontrei o respectivo link na edição online do jornal), seguida de breves comentários aos seus equívocos:

Título: ‘Tiro’ de Saramago fere ‘blogger’

Pós-título: Polémica. José Mário Silva responde ao texto do Nobel após publicação de crítica sobre ‘O Caderno’

Legenda da foto (capa de ‘O Caderno’): O livro de Saramago em causa

Texto: «A crónica que ontem José Saramago publicou neste jornal (e no seu blog) provocou uma rápida e polémica resposta no blogue do visado, José Mário Silva, pois o crítico do Expresso não aceitou a quebra de um hábito do Nobel, de “não responder e nem sequer comentar qualquer apreciação feita ao meu trabalho”. Mas Saramago comentou e o crítico ripostou em longo texto às suas críticas e sobre o direito de ambos à indignação, referindo que ela é “um dever” e que “pode funcionar como uma arma poderosa que ao atingir o alvo também pode provocar danos colaterais”, principalmente se “a carregar no imaginário gatilho está uma figura com a influência e o poder mediático de um Prémio Nobel”. O “tiro” de Saramago, diz, “tornou-o num blogger de pleno direito” e pôs fim a uma das críticas feitas por Mário Silva. As outras, esperam-se os próximos capítulos.»

Assinatura: João Céu e Silva

Para que conste:

- O título é um disparate: nem Saramago disparou qualquer “tiro” sobre mim (mesmo supondo que o projéctil sairia da “arma”-indignação), nem eu me senti ferido. A violência da imagem, com um cheirinho a pólvora e tudo, pretendeu apenas alimentar a ideia de uma animosidade que nunca existiu no meu diálogo com Saramago. Parece-me óbvio o intuito de criar polémica à força – percepção corroborada por todas as pessoas que me falaram da peça. Na gíria jornalística, costuma-se dizer que certas notícias só são feitas “se houver sangue”. Não havendo sangue, como neste caso, inventa-se o sangue.

- João Céu e Silva sugere que eu não aceitei a «quebra de um hábito do Nobel»: o de não responder a quem escreve sobre as suas obras. Mas por que carga de água é que eu não aceitaria um gesto nobre e generoso como este, ainda por cima inédito? Então o nosso Prémio Nobel dispõe-se a discutir com um interlocutor quase 50 anos mais novo e o interlocutor quase 50 anos mais novo ia assim, sem mais nem menos, torcer o nariz à iniciativa do consagrado? Caberá isto na cabeça de alguém? Na minha não cabe. Na sua, caro leitor, creio que também não.

- Há também uma citação truncada. E poucas coisas me exasperam mais do que uma citação truncada. Onde eu escrevi «(…) convém não esquecer que a indignação pode funcionar como uma arma. Uma arma poderosa, mas que ao atingir o alvo (através das denúncias do que está mal no mundo, por exemplo) também pode provocar danos colaterais», João Céu e Silva transcreveu «pode funcionar como uma arma poderosa que ao atingir o alvo também pode provocar danos colaterais», aproximando dois «pode» que estavam a uma razoável distância um do outro (e subitamente deixaram de estar). Nestes casos, costuma-se assinalar os cortes com o tradicional parêntesis com reticências lá dentro. Não custa nada (até recorri a um, lá mais para cima), mas Céu e Silva esqueceu-se de o usar. Foi pena.

- Quanto às duas últimas frases, são tão crípticas que dispensam comentários. Quem quiser (e tiver paciência), que leia o texto de Saramago, depois a minha réplica, e tire as suas próprias conclusões.



Comentários

12 Responses to “Uma notícia falaciosa”

  1. joão céu e silva on Julho 9th, 2009 9:53

    Caro José Mário Silva
    Que tempos estes em que uma proclamação pública no Nobel seguida de longa resposta do crítico já não é considerada uma polémica…
    Que tempos estes em que a notícia teve um espaço tão breve – que até a tornou “críptica” – e que só o DN a fez…
    Que tempos estes em que um antigo camarada de redacção, que não gosta de sangue apesar de a literatura vampiresca estar na moda, vê como é preciso o quádruplo do espaço que usou para a poder ver comentada sem estar “truncada”…
    Um abraço João Céu e Silva

    • polaca on Julho 9th, 2009 10:26

      Bem, JMS, com amigos desses, …

      • Luís Rodrigues on Julho 9th, 2009 10:28

        Não entendi a troca de opiniões entre JMS e JS como uma “polémica”, mas se chegar para cumprir a quota mínima de drama exigida pelo público das internetas, então sim podemos considerar o Saramago um blogger de pleno direito.

        • José Mário Silva on Julho 9th, 2009 10:38

          Caro João,

          Eu sei que o espaço não é elástico e que 850 caracteres para explicar um assunto, seja que assunto for, nunca são suficientes. Ainda assim, acho que a peça, mesmo pequena, transmite ao leitor uma ideia errada (ou pelo menos enviesada): a de que eu teria ficado descontente, ou “ferido”, com a reacção de Saramago.
          Ora, sabes bem que não foi isso que aconteceu. O escritor limitou-se a comentar a crítica que lhe fiz, lançando-me gentilmente um repto: «explique lá melhor o que quis dizer». E eu expliquei melhor o que quis dizer, beneficiando do espaço ilimitado que a blogosfera me oferece (e a página de jornal não). End of story. Tudo o resto é ruído.

          • venancio on Julho 9th, 2009 11:05

            Os turibulários de Saramago são assim. Ou tornam-se assim. Não-me-toques. Perliquitetes.

            Tive, até hoje, o jornalista João Céu e Silva em mais alta conta.

            • Twin Towels on Julho 9th, 2009 12:00

              Não há qualquer suporte para intrigas.
              Não há intertexto para tanto. O texto de ambas as partes é objectivo e competente. Qualquer histeria em volta disto pode com facilidade ficar exposta ao ridículo, sozinha.
              Há dois momentos interessantes no diálogo que se gerou: a generosa abordagem do Saramago, e o registo do José Mario como sendo esse o gesto que o tornou num blogger como os conhecemos.

              O Venâncio terá as suas razões e até material para uma tese, mas… assim a frio parece aquele discurso desorientado de que os benfiquistas são todos uns disto, e os portistas todos uns daquilo. Eu estimo o Saramago (adiante da Jangada de Pedra acho que se lhe esgotou a magia, mas ainda não lhe li o livro do Elefante), mas não quero permitir que alguém me interprete com um preconceito dessa natureza.

              Certamente tresleio-lhe as palavras, pois olho-as e elas parecem também dizer isto: “Vamos criar uma facção!”
              Espero estar errado.

              • polaca on Julho 9th, 2009 12:51

                É por estas que o DN ajuda na economia nacional: evita que milhões de pessoas gastem dinheiro nele… Bem-hajam!

                • Uma notícia falaciosa | Bibliotecário de Babel « vortex on Julho 9th, 2009 13:14

                  [...] ler a notícia e a resposta de José Mário Siva aqui. [...]

                  • venancio on Julho 9th, 2009 14:38

                    Twin Towels,

                    Distinga Saramago dos seus turibulários e damas de honor. Que, graças a Deus, também não são assim tantos. Mas fazem mal que chegue, e que é bom assinalar.

                    Como é bom assinalar o honesto feito do Zé Mário.

                    • Twin Towels on Julho 9th, 2009 18:23

                      Venâncio, posso fazer de conta, a verdade é que não sei exactamento do que fala.
                      Por outro lado, pergunto: o problema são apenas essas penadas mas próximas almas, ou é o próprio Saramago?
                      Fico curioso, isto por saber que já se dedicou ao assunto com rigor.

                      Arrisco isto: se é reacção alérgica à senhora PresidentA, pois, até já percebo algo, mas sou tão generosamente condescendente que me anestesio.

                      (Sorri com o trocadinho que fizeram na Flip, perante o Lobo Antunes, de que o Nobel de 1998 teria sido um “erro de português”; e fico a pensar, o Lobo Antunes sem uma PresidentA assim, não chega lá nunca, ou chega?)

                      • venancio on Julho 9th, 2009 19:20

                        Tantas perguntas, Towels, e eu com tão poucas respostas.

                        Começo por limpar a eira. Quando falei de incensadores e damas de honor, não me passou pela cabeça a PresidentA. Não: refiria-me aos acríticos caudatários que Saramago tem em Portugal, gente para quem ele saiu perfeito das mãos do Altíssimo, e que dão pulos de júbilo a cada novo livro, que é sempre o melhor de todos.

                        Uma coisa são os três ou quatro romances simplesmente assombrosos que Saramago escreveu (e que mereceram largamente o Nobel). Outra bem diferente são os subprodutos que também assinou e que vem assinando. O Pedro Mexia identificou alguns deles, o que só nos ficou bem a todos.

                        E é a constatação de que, também para o Zé Mário Silva, o Saramago não é um objecto sagrado, é isso que reconforta.

                        P.S. Quanto ao sucesso internacional do autor e o papel nisso da Senhora Presidente (e não será um espanhol a impor-nos normas morfológicas), digamos que há sortes invejáveis, e possivelmente irrepetíveis. Se o Antunes não tiver uma assim, não se perderá muito. Os seus subprodutos são ainda mais deploráveis.

                        • M. Garcia on Julho 10th, 2009 8:58

                          Conheço o escritor Saramago, mas não conheço estes tipos, tão geniais quanto o Saramago… Fiquei encantado!

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