Uma odisseia alemã

capa Regresso

O Regresso
Autor: Bernhard Schlink
Título original: Die Heimkehr
Tradução: Fátima Freire de Andrade
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 314
ISBN: 978-989-23-0070-2
Ano de publicação: 2008

Nascido em 1944, quase no fim da II Guerra Mundial, Bernhard Schlink pertence a uma geração de alemães que teve de lidar, desde muito cedo, com um pesadíssimo e por vezes ambíguo sentimento de culpa colectiva. Crescer num país em ruínas, com a sombra do nazismo ainda a pairar e o inexplicável horror do Holocausto às costas, conduziu inevitavelmente a um doloroso escrutínio moral de todos aqueles que colaboraram com o III Reich ou foram cúmplices, por acção ou omissão. Odiar Hitler e sua pandilha, ainda por cima “a posteriori”, era uma necessidade, uma evidência. Mais complicada deve ter sido a descoberta de que pessoas aparentemente boas — tios, amigos, professores — aderiram de livre vontade às SS ou denunciavam judeus à Gestapo.
É neste território difuso, onde os demónios do passado surgem de onde menos se espera, que a ficção de Schlink se movimenta. No romance O Leitor (1995), best-seller global já traduzido para 39 línguas, um homem iniciado sexualmente na adolescência por uma mulher mais velha, com quem vive uma história de amor intensa mas breve, vem a reencontrá-la muitos anos depois numasala de tribunal, onde a acusam de ser ex-guarda de um campo de concentração. A fronteira que separa pessoas normais da banalidade do Mal (explicada por Hannah Arendt) pode ser muito precária e é nesse fio da navalha que algumas personagens de Schlink caminham, para desconcerto e angústia dos protagonistas que com elas interagem, quase sempre homens de leis com poucas certezas quanto à sua legitimidade para julgar os outros.
Em O Regresso, a narrativa constrói-se como uma espécie de “tema e variações” a partir da Odisseia, de Homero. Criado no pós-guerra por uma mãe duríssima, Peter Debauer passa férias com os avós paternos, editores de romances de cordel num recanto idílico da Suíça. Um dia, ao usar provas tipográficas como rascunho, põe-se a ler um romance sobre o regresso a casa de um soldado alemão e fica obcecado pela história, cujo desenlace ignora, por já ter utilizado as respectivas folhas em trabalhos escolares. Anos mais tarde, regressa a esses fragmentos das aventuras de Karl, que copiam e reinventam os trabalhos de Ulisses, lançando-se numa complexa e demorada procura que tem tanto de exegese literária quanto de investigação policial. Embora o objectivo de Peter seja descobrir e compreender as motivações do autor do livro, no fim é a sua própria identidade — e a do seu pai (supostamente morto durante a guerra) — que se clarifica.
Licenciado em Direito com a agregação por fazer, Debauer reflecte muito sobre a ideia de Justiça, confrontando-a com a sua aplicação tanto nos contextos históricos como na vida privada. Isto enquanto lida alternadamente com a memória pouco fiável da mãe, com as suas próprias derivas existenciais e com uma relação amorosa que mais uma vez replica, à sua maneira, a matriz da Odisseia.
Schlink controla com mão de mestre os vários ritmos internos deste romance impecavelmente construído, mas podia ter sido mais económico ao descrever a passagem de Peter por Berlim Leste, após a queda do Muro. Já a sequência americana, perto do final, que culmina com um huis clos a meio caminho entre o programa Big Brother e o filme Jogos Perigosos, de Michael Hanecke, tem um registo tão diferente do resto do livro que mais parece um enxerto, funcionando como um involuntário anticlímax.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



Comentários

2 Responses to “Uma odisseia alemã”

  1. diga cultura on Junho 4th, 2008 9:57

    Uma odisseia alemã

    Nascido em 1944, quase no fim da II Guerra Mundial, Bernhard Schlink pertence a uma geração de alemães que teve de lidar, desde muito cedo, com um pesadíssimo e por vezes ambíguo sentimento de culpa colectiva.

  2. Novidades da ASA para Outubro | Bibliotecário de Babel on Setembro 15th, 2009 10:03

    […] de O Regresso e da reedição de O Leitor, a ASA continua a apostar em Bernard Schlink, com o livro de contos O […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges