Parábola filosófica

capa 'Uma Segunda Juventude'

Uma Segunda Juventude
Autor: Mircea Eliade
Título original: Le temps d’un centenaire
Tradução: Miguel Mascarenhas
Editora: Bico de Pena
N.º de páginas: 115
ISBN: 978-989-621-067-0
Ano de publicação: 2008

Conhecido sobretudo pelos seus estudos no campo da História das Religiões, Mircea Eliade acaba de ver editados por cá dois livros relativamente periféricos em relação ao eixo central da sua obra. Primeiro apareceu o curioso, por vezes áspero e sempre muito melancólico Diário Português [1941-1945], com chancela da Guerra & Paz, escrito no período em que o ensaísta foi adido cultural e de imprensa na embaixada romena em Lisboa. Agora surge Uma Segunda Juventude, coincidindo com a estreia do mais recente filme de Francis Ford Coppola, adaptação desta novela publicada em francês pela Gallimard, em 1981.
A história abre com uma espécie de milagre. Ao chegar a Bucareste na noite de Páscoa, decidido a suicidar-se (leva estricnina num envelope azul dentro do bolso), o professor Dominic Matei é atingido em cheio, na cabeça, por um relâmpago. Contra toda a lógica, consegue sobreviver, apesar das queimaduras teoricamente fatais, transformando-se no objecto de estudo de um médico romeno (Stàncielescu) e de um especialista francês (Gilbert Bernard). Com o passar dos dias, Matei não só recupera muito bem como começa a rejuvenescer — uma de várias impossibilidades fisiológicas que deixam abismados os clínicos (outra é o surgimento de uma nova dentição completa).
O septuagenário atingido pelo raio não aparenta agora mais de 30 anos e a progressiva perda de memória, que o levara a querer matar-se, foi substituída por uma hipermnésia — lembra-se de tudo, até de versos de Ungaretti a que não voltara desde a “primeira juventude”. Além disso, as suas faculdades mentais agigantaram-se e pode finalmente escrever o livro definitivo sobre a origem da linguagem, tratado que deixara em suspenso há várias décadas, o opus imperfectum causador de todas as suas angústias e frustrações.
Acontece isto em 1938, nas vésperas da II Guerra Mundial. A conjuntura histórica não perdoa. Para lá do interesse da comunidade médica e dos jornalistas, o estranho caso atrai a atenção dos nazis, que procuram confirmar as teses de um certo doutor Rudolf, defensor da regeneração da espécie humana através da electrocussão em grande escala. Para escapar à Gestapo, Matei altera a fisionomia, muda de identidade e exila-se em Genebra, o que não impede o confronto com toda a sorte de fenómenos fantásticos, desde epifanias com rosas a desdobramentos de personalidade (um doppelgänger que empurra para o Mal), passando por visões do “homem pós-histórico” (sobrevivente das catástrofes nucleares), arremedos de metempsicose e um desfilar de personagens inverosímeis, quase sempre mal esboçadas. Como Veronica, uma rapariga alemã na qual Matei descobre uma espécie de emanação do seu amor perdido (Laura) e que começa de repente a falar em sânscrito e sumério, durante uns bizarros “êxtases paramediúnicos”.
Parábola filosófica sobre o Tempo, Uma Segunda Juventude mergulha-nos num labirinto onírico, onde os erros se repetem e os regressos se tornam impossíveis. Infelizmente, o afã de Eliade em convocar, mesmo se de forma implícita, temas que lhe são caros (do Eterno Retorno ao xamanismo indiano) desequilibra e fragiliza uma narrativa que transborda de ideias, é certo, mas depois parece não saber o que fazer com elas.

Avaliação: 5,5/10

[Versão ligeiramente ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges