“Uma sala onde não se entra”

Na sua espantosa singularidade, a obra de Maria Gabriela Llansol devia ser imune ao consenso, mesmo aquele que tende a formar-se quando um autor maior desaparece, rasurando automaticamente um passado tudo menos unânime.
Pela própria natureza da escrita — fragmentária, impossível de catalogar (é poesia? é ficção? é filosofia?), teoricamente densa e criadora de um complexo universo de referências simbólicas que a legitimam e justificam —, os livros desta autora são talvez os mais herméticos da literatura portuguesa contemporânea. Das duas, uma: ou o leitor se perde na vertigem de um pensamento que parece sempre exterior (porque inalcançável), ou começa de imediato a tirar notas para a sua futura tese de doutoramento.
Talvez por ser assim, tão desafiante como fechada sobre si mesma, Llansol personificou como poucos o paradigma da literatura dita difícil. Havia um culto llansoliano, capaz de unir pessoas que esperavam de cada parágrafo seu, de cada diálogo imaginário com Hölderlin, uma revelação epifânica; e havia os que a desprezavam por verem nela um exemplo extremo de literatura que sabe que é literatura, mas aqui reduzida a um penoso exercício de solipsismo sorumbático, cheio de misteriosos envios, mitologias privadas e formalismos (os travessões, os espaços em branco, os efeitos rítmicos da prosa).
Devo dizer que nunca soube como e onde me colocar diante dos textos de Llansol. Não fiquei de joelhos, esmagado, como alguns deles parecem exigir que o leitor fique. Mas também não os descartei pelo simples facto de me dificultarem a entrada na sua lógica, no seu sentido. Em última análise, o que sempre me fascinou em Llansol foi a sua linguagem, o modo como obrigava a língua portuguesa a superar-se, mais do que as deambulações metafísicas por uma realidade sempre demasiado próxima do sublime para o meu gosto.
A linguagem de Llansol, a sua incandescência, eis o que ainda hoje me perturba. Aí, e só aí, encontrei o “limite” de que fala Luís Quintais, a visão da sua escrita como “uma sala onde não se entra porque não se acha digno de nela entrar”.

Comentários

15 Responses to ““Uma sala onde não se entra””

  1. fallorca on Março 5th, 2008 19:08

    :)

    • C on Março 5th, 2008 20:28

      Quando alguém, de um leigo se fala, gosta de ler críticas de livros talvez esteja motivado por uma qualquer vontade curiosa que obvia pensamento, “deixa ver como é que ele entendeu esta coisa”. E, acerca da autora em questão, isto é mesmo verdade. Com muito de filosófico, sim, assente (ou partindo de ou resultando) em alguma questão metafísica (que pessoalmente poderia agradar-me se fosse mais partilhável. Hermética sim), tudo servido por uma estrutura formal difícil. Creio que certas frases só mesmo para a compreensão da escritora. Lembro-me que pus de lado um dos livros pouco tempo depois da página inicial (a leitura para mim não tem que representar tão sublime esforço) e, o que gostei mesmo na sua muito boa crítica, foi essa frase ‘nunca soube como me posicionar diante da escrita de…’. Deve acontecer isso a alguns.

      • cândida on Março 5th, 2008 22:38

        Ela _______
        ___________
        _____________ ___________ ___________

        • fallorca on Março 6th, 2008 0:32

          C acho que com essa frase do Zé Mário - «nunca soube como me posicionar diante da escrita de…» - ele lhe presta uma honestíssima homenagem que ela, por certo, não desdenharia.

          • C on Março 6th, 2008 7:41

            Sim, mas, a meu ver, confirmando a tal especie de impenetrabilidade na escrita de alguns livros da autora (sem questionar a sua qualidade e técnica); que, para mim, representam um esforço. Literário. MGL gostaria dessa homenagem, certamente. JMS tocou os pontos todos.

            • fallorca on Março 6th, 2008 12:01

              C, tem de rever o que chama «a tal especie de impenetrabilidade na escrita de alguns livros da autora»… Vale bem o que considera um «esforço literário» para LER uma escritora que escreveu para além da literatura.

              • C on Março 6th, 2008 13:46

                Em vez de ‘esforço’ torná-lo um ‘desafio’ literário? Aí posso deparar-me com a tal pré-história na vida do leitor que se constitui como ferramenta para descodificar certos enigmas. De escrita. Sabemos que alguns autores escrevem para os parceiros literários e poucos mais. Os outros também podem entrar lá, com esforço acrescido. Vamos ver. Se houver alguma dúvida muito premente hei-de colocá-la aos literatos deste blogue.

                • fallorca on Março 6th, 2008 14:17

                  C… coloque aos literatos, mas por favor não me inclua nesse grupo a que nunca pertenci nem me passou pela cabeça alguma vez poder pertencer ;)

                  • C on Março 6th, 2008 20:29

                    ih, ih, ih, ih.

                    • cândida on Março 10th, 2008 15:01

                      hommage à llansol

                      ih _________ ih
                      _______:
                      ih

                      Got something to say?





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