Uma visão muito british do que é o heroísmo

101 Heróis – As aventuras dos maiores ídolos da História da Humanidade
Autor: Simon Sebag Montefiore
Título original: 101 World Heroes
Tradução: Freitas e Silva
Editora: Guerra & Paz
N.º de páginas: 320
ISBN: 978-989-8174-08-6
Ano de publicação: 2008
Nascido numa família de banqueiros, em 1965, Simon Sebag Montefiore começou por trabalhar em empresas de investimento financeiro no início dos anos 90. Com fama de mulherengo e estróina, Montefiore fez depois uma breve passagem pelo jornalismo (ficou célebre uma entrevista às Spice Girls em que conseguiu arrancar-lhes uma declaração de apoio a Margaret Thatcher) e só no início deste século é que o seu nome se tornou uma referência na disciplina que estudou em Cambridge: História. Três livros de temática russa – Catherine the Great & Potemkin (2000), Stalin: The Court of the Red Tsar (2003) e Young Stalin (2007) – trouxeram-lhe reconhecimento crítico, vários prémios e o estatuto de figura emergente no meio cultural britânico. Algures entre o scholar e a estrela pop, Montefiore, que está próximo tanto do Príncipe Carlos como do novo líder dos tories (David Cameron), representa na perfeição o intelectual conservador dos dias de hoje. É um erudito acessível, capaz de emitir «opiniões fortes» mas sempre com um estilo infinitamente cool. O lançamento de Young Stalin – biografia que descreve a transformação do antigo líder soviético «de homem em monstro» (e cujos direitos cinematográficos foram comprados pela Miramax) – aconteceu numa das mais faustosas joalharias de Bond Street, em Londres, e um artigo da Vanity Fair descreveu em detalhe como o historiador circulava, no seu fato cinzento Dolce & Gabbana e camisa branca de colarinho aberto, entre dezenas de políticos, empresários e socialites.
Nada disto teria qualquer importância se o lugar de onde Montefiore escreve, digamos assim, não moldasse esta escolha de 101 heróis de forma tão ostensiva. A ideia original do projecto era oferecer exemplos de grandeza que iluminem uma «era não-heróica». A nossa, claro. Na introdução, SSM aponta o dedo: «O heroísmo está fora de moda. Ignoramos os verdadeiros heróis e propagandeamos, em vez deles, ídolos sem valor.» É então à procura dos «verdadeiros heróis» que este livro parte. Ou seja, dos homens e mulheres que souberam, ao longo da História, aliar «a coragem, a tolerância e o altruísmo» à defesa dos mais fracos e da liberdade.
Embora seja discutível que algumas destas virtudes estejam presentes em muitas das figuras escolhidas, a lista alterna entre as propostas óbvias (Leónidas de Esparta, Joana d’Arc, Fernão de Magalhães, Newton, Florence Nightingale, Gandhi, Churchill, Schindler ou Mandela), as que surpreendem (Safo, Casanova, Tchaikovski, Toulouse-Lautrec, Proust, Marechal Jukov) e as que resgatam histórias menos conhecidas (Lady Hester Stanhope, Toussain Louverture, Odette Sansom). Num projecto desta natureza, há sempre ausências difíceis de justificar, embora algumas sejam mais difíceis de justificar do que outras. Por exemplo, de Spartacus nem se ouve falar, mas os fundadores de religiões, que dificilmente encaixam na definição de herói, estão lá todos (Buda, Confúcio, Jesus, Maomé). Como é que se inclui Elvis Presley e não Neil Armstrong, o Capitão James Cook e não Simon Bolívar? Pior: como é que se escolhe o arquitecto renascentista Brunelleschi e se esquece Leonardo da Vinci?
A principal limitação deste volume, porém, está no facto de Montefiore olhar para a História a partir de Inglaterra, o que minimiza o alcance da sua panorâmica. Dos 101 heróis escolhidos, 27 são britânicos (mais de um quarto), seguidos de longe pelos franceses (11), pelos norte-americanos (nove) e pelos gregos (seis), sendo que estes últimos só se safam porque houve uma coisa chamada Antiguidade Clássica. O enviesamento ideológico é também evidente. Fora Garibaldi, não há qualquer revolucionário na lista. E as figuras de esquerda contam-se pelos dedos. Já políticos conservadores não faltam, incluindo Margaret Thatcher (sim, a Dama de Ferro que «quebrou o poder dos sindicatos»), de quem Montefiore traça um perfil desavergonhadamente hagiográfico.
Avaliação: 3/10
[Versão ligeiramente mais longa de um texto publicado no número 75 da revista Ler]
Comentários
One Response to “Uma visão muito british do que é o heroísmo”
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Caro José Mário Silva
Apenas um apontamento sobre a sua consideração “…mas os fundadores de religiões, que dificilmente encaixam na definição de herói, estão lá todos (Buda, Confúcio, Jesus, Maomé)”.
Apesar de ainda não ter lido a obra, ocorreu-me logo a possiblidade de o autor filiar a sua abordagem na obra de Thomas Carlyle “Heroes and Hero Worship”, onde o heroísmo é tratado como culto de personagens, nem sempre históricas (mitologógicas, algumas)