valter hugo mãe: “Na cabeça dos velhos pode haver turbilhões”

Em a máquina de fazer espanhóis, romance que marca a passagem da editora QuidNovi para a Objectiva (chancela Alfaguara), valter hugo mãe criou um grupo de idosos para compreender, enquanto escritor, que «violência é essa de pensar a morte mesmo ao pé dela», ali no extremo da vida, quando o corpo se torna um inimigo e um traidor. Paradoxalmente, embora esteja muito distante de uma tal realidade crepuscular (tem 38 anos), o autor de o remorso de baltazar serapião considera ser este o seu livro mais autobiográfico: «É o mais pessoal, o que mais me magoou, aquele em que chorei mais; e é também o que mais se aproxima da minha intimidade, ou do meu medo de estar vivo.»
Ao moldar o protagonista, valter teve presente a figura do pai, desaparecido há precisamente dez anos, sobre quem até hoje nunca conseguira escrever. «A última palavra do livro [e da personagem principal] coincide com a última palavra que o meu pai disse: “angústia”. Em três anos e meio de cancro, foi a única vez que verbalizou o seu estado de doença, como se antes não nos quisesse passar o ónus de um qualquer sofrimento.» Na nota final do romance, o escritor abre o jogo: «lamento muito que o meu pai não esteja a viver a terceira idade, por isso decidi inventar[-lhe] uma».
A terceira idade inventada por valter, porém, não é a mera réplica do cenário triste dos lares reais, onde os idosos vegetam em frente à televisão, esperando comida e medicamentos a horas certas. Ao visitar uma dessas casas, não aguentou mais do que vinte minutos de tamanha claustrofobia. «Foi muito intenso, não quis repetir.» Depois, no processo de escrita, se por um lado tentou «prender o leitor dentro daquelas paredes, obrigá-lo a viver um pouco aquela clausura», por outro foi libertando os idosos do seu torpor existencial. «Quis atribuir-lhes uma perigosidade que já não lhes reconhecemos, mostrar que nas suas cabeças ainda pode haver turbilhões, por mais que os seus corpos se tenham transformado nuns sacos imprestáveis, à beira da ruína final.»
O primeiro capítulo de a máquina de fazer espanhóis foi escrito no próprio dia em que valter terminou o apocalipse dos trabalhadores. Talvez por isso, existem vários pontos de contacto entre os dois romances: «São ambos sobre morrer de amor. E os dois abordam a questão da portugalidade, embora de modo muito diferente.» No primeiro, Portugal era nome de cão, um «ridículo rectângulo castanho» cheio de pulgas, melancólico e metafórico. Agora a reflexão identitária é mais concreta, há vários capítulos sobre o Estado Novo e sobre esse fascismo (o escritor não tem medo da palavra) que perdura dentro de muitas cabeças, imune aos já muitos anos de democracia.
No dia 25 de Abril de 1974, valter não tinha ainda sequer três anos. Lembra-se de estar em Lisboa, vindo de Paços de Ferreira, onde vivia. Brincava num parque, «com um menino muito louro, de olhos azuis, demasiado branco para quem, como eu, chegara recentemente de Angola», quando ouviu o pai, sem saber ao certo o que se passava, gritar para a mãe: «Foge, Antónia, é a guerra, é a guerra». Entre as pessoas da sua geração, habituou-se a ser o único que se lembrava desse dia, o único cuja primeira memória coincide com a data em que a ditadura caiu. Talvez assim se explique que seja dos poucos autores com menos de quarenta anos a olhar de frente o período salazarista. «Sempre me interessou perceber do que é que fugiram as pessoas, ao conquistarem aquela liberdade toda.»
Quanto à transformação do Esteves sem metafísica, do poema A Tabacaria, em personagem do livro, correspondeu a uma vontade de convocar Pessoa, de o homenagear. «Fascina-me a capacidade da literatura transformar o quotidiano em mitologia. É aquele toque de Midas dos escritores, capazes de passar tão rente e tão pequeninamente ao pé de alguma coisa e mesmo assim elevarem-na a algo de fundamental para o nosso imaginário.»

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]



Comentários

2 Responses to “valter hugo mãe: “Na cabeça dos velhos pode haver turbilhões””

  1. António on Janeiro 28th, 2010 22:26

    Comecei por achar que o valter hugo mãe se estava a tornar no escritor da moda, ainda assim, e tendo em conta as críticas (são unânimes em elogiar a qualidade das obra) e alguns dos textos que tenho lido do autor, textos soltos, penso que vou “arriscar” a leitura dos seus livros. Provavelmente, terei uma boa surpresa. Assim espero.

  2. Américo on Fevereiro 4th, 2010 12:16

    comecei a ler e pasmei.
    normalmente sou avesso às unanimidades em volta de um autor que se torna moda. gosto – imenso – do look e do bom gosto fotográfico. e já me deparo nas livrarias a folhear as anteriores obras do valter.
    estou a ler este livro de uma assentada e usando as palavras do autor quanto a camões (que disse que se este fosse vivo ia para a cama com ele) também eu o faria. estou certo que estou perante alguem. parabens. além de tudo o mais vila do conde foi onde sofri a perda, entrei na vida de trabalho adulta a sério e conheci o meu primeiro beijo… e sou américo.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges