Ver alguém que vê alguém

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Quando fala sobre a música de Johann Sebastian Bach, o rosto de Pedro Eiras ilumina-se: «Ela é miraculosa porque nos provoca coisas que não sabemos explicar. Mas ao contrário de um milagre, que é uma coisa única e irrepetível, volta a arrebatar-nos e a esmagar-nos da mesma maneira de cada vez que a ouvimos.» Aos 39 anos, este professor de literatura portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, também ensaísta, dramaturgo e romancista, sabe do que fala porque a música de Bach faz literalmente parte da sua vida diária. «Há vinte e tal anos que ouço Bach todos os dias. Todos os dias mesmo. Podem ser só uns minutos, podem ser muitas horas, mas nunca falha. É preciso estar algures em viagem, perdido no estrangeiro, para não ouvir. E mesmo assim…»
Melómano desde sempre, Eiras teve um ano de solfejo e tentou o piano durante seis meses, pelo que não é um analfabeto musical (consegue ler uma pauta), mas está muito longe de ser um especialista. A descoberta de Bach foi relativamente tardia: «Para mim, no início, ele era um autor canónico das escolas de música, autor de peças muito complicadas, cerebrais, abstractas e que era obrigatório apreciar.» Até que um dia a irmã lhe emprestou uma cassete com o Magnificat e deu-se uma espécie de epifania. «Passados uns tempos, calhou alguém estar a falar sobre a ‘Paixão segundo S. Mateus’. Ah, tenho ali o CD, vou buscar, tens de ouvir. Ainda resisti, mas depois aconteceu alguma coisa de muito visceral. Eu tinha de voltar àquilo. Lembro-me que tive uma grande insónia, não consegui dormir, ansioso que estava para ir comprar o disco logo de manhã.»
Pedro Eiras partilha estas memórias em Lisboa, num bar da Faculdade de Letras, onde veio participar num colóquio. Junto às chávenas de café, um exemplar do livro que acaba de lançar: Bach (Assírio & Alvim). Foi para estas 150 páginas que convergiu o seu fascínio imenso pelo autor dos Concertos Brandeburgueses. No texto final, intitulado 2002, uma reflexão sobre a génese desta obra, pode ler-se: «Pensei que gostaria de escrever sobre Bach, mas não sei como se escreve sobre Bach.» E quando é que passou a saber? Eiras sorri: «Na verdade, só consegui avançar quando percebi que não ia escrever sobre Bach. Não sobre ele em concreto. Isso foi muito importante.» Houve primeiro quantidades imensas de investigação histórica, biográfica, até musicológica: «Li muitas coisas óptimas, admiráveis. Mas nesses materiais, percebi sempre que o Bach estava e não estava lá. Os livros são sobre ele mas há qualquer coisa que tu ouves na música que não cabe num livro, por mais que o livro seja brilhante. Então como chegar a essa qualquer coisa indefinível? É preciso tentar e falhar. Tentar e falhar. Muitas vezes.» E sobretudo desistir de explicar o génio em si mesmo. Em vez disso, escrever «ao lado», centrando a atenção em figuras reais que de algum modo foram tocadas, nas suas vidas, pela música de Bach – ou até a precederam, como no caso de Martinho Lutero, essencial por ter criado os hinos dos corais que o compositor depois trabalharia. A lista dessas figuras, escolhidas por Eiras entre muitas outras possíveis, é bastante heterogénea: além do fundador do luteranismo, surgem nestas páginas Anna Magdalena Bach, Esther Meynell, Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, Gustav Leonhardt, Glenn Gould, John Cage, Leibniz, Maria Gabriela Llansol, Joshua Ben-Josef, Etty Hillesum e Albert Schweitzer.
Destas figuras, a que primeiro se impôs foi Anna Magdalena, a viúva. «Tinha de começar por ela, poucos dias após a morte de Johann, quando ela se confronta com o vazio da casa e a ameaça do esquecimento. A ameaça da miséria, também. É um cenário de ruína. Há que começar aí. E perguntar o que é uma ruína. O que sobra quando tudo se esboroa. Os instrumentos já se foram todos, ainda sobram algumas partituras, mas uma semana depois Anna Magdalena talvez tenha de as vender porque tem fome.» É quando começa a imaginar a angústia da viúva, forçada a suplicar às autoridades o direito a permanecer mais seis meses no apartamento, concedido ao Kantor por uma escola de Leipzig, é quando se entrega ao princípio da ficção que se apercebe de um efeito de mimetismo: «Estava a repetir o gesto de uma escritora inglesa, Meynell, que entretanto tinha descoberto. Nada contra. Enfrentemos isso. Não sou o primeiro a andar por estes territórios. Nem vou fingir que sou. Pelo contrário, estou a escrever um texto que se apoia numa rede de textos que outros escreveram. Então o segundo capítulo é sobre isso: o acto de ler Pequena Crónica de Ana Madalena Bach e espreitar a mulher que espreitou, mesmo se imaginariamente, Anna Magdalena a espreitar o marido, escondida atrás da porta.» Eis uma imagem que surgirá uma e outra vez ao longo do livro: «Nestes textos há sempre alguém a ver alguém, que vê alguém, que vê alguém.»
Nos primeiros capítulos, é notória uma relação directa entre as personagens que se sucedem: Anna Magdalena foi ficcionada por Meynell; o livro de Meynell foi adaptado ao cinema pelo casal Straub; Gustav Leonhardt interpretou Bach nesse filme. Há uma espécie de cadeia, mas a partir de certo momento as ligações entre os textos deixam de ser tão óbvias. «É importante que o leitor, a meio, se vá perdendo um bocadinho. Embora para mim as relações sejam evidentes – até o que é invisível, até o que apaguei.» Chegou a existir um capítulo sobre Douglas R. Hofstadter, autor de Gödel, Escher, Bach, que ficaria perto do dedicado a Leibniz, mas acabou por cair. «Foi por razões estruturais. Uma questão de equilíbrio. Do mesmo modo que nas ‘Paixões’ existem momentos corais alternados com recitativos e árias, alegria e tristeza, eu procuro obsessivamente o tom certo, preocupa-me saber como é que a pergunta de um capítulo encontra resposta noutro, que por sua vez lança uma nova pergunta para o seguinte.» Na verdade, Eiras tinha decidido desde o início que o livro teria 14 capítulos, mas o carácter proliferante do exercício podia estender-se sem fim. «São 14 capítulos mas podiam ser mil. Isto não termina.»
A insistência no número 14 foi tudo menos gratuita. «Esse é o número de Bach (B é 2; A é 1; C é 3; H é 8). E o compositor criou por isso vários temas com 14 notas, tal como fez do seu apelido uma assinatura musical em muitas obras (as quatro letras correspondem a notas). Trata-se de uma piscadela de olhos numerológica, que a maior parte dos leitores provavelmente não captará, mas não há nisso nenhum mal.» Por outro lado, é forçoso reparar nos números de catálogo ao baixo da folha de abertura de cada capítulo: BWV 225, BWV 8, BWV 1080, BWV 852, etc. Através deles, o leitor pode procurar (no YouTube, por exemplo) versões das obras a que os textos aludem e até escutá-las durante a leitura. No fundo, além de bibliografia («uma dívida de gratidão», a revelar escrúpulos académicos), o livro também traz uma sugestão de banda sonora – sublime como poucas. Quanto ao risco do cansaço, que por vezes atinge quem mergulha demasiado tempo num só assunto, Eiras sabia-se a salvo: «Podemos sempre voltar a Bach. E voltar. E voltar. Porque ele é inesgotável.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]



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