Versão impressa (2)

Não há link para o artigo no Diário de Notícias de hoje, por isso transcrevo:

A literatura que nasce na rua
e por vezes rasga a realidade


A história foi contada ontem por Carlos Quiroga, moderador do sétimo debate do encontro Correntes d’Escritas, que tinha “A Rua faz o Livro” como mote. Há uns anos, num colóquio de escritores em Moçambique, um grupo de que faziam parte Onésimo Teotónio de Almeida e Manuel Rui decidiu regressar a pé para o hotel. No caminho, os literatos cruzaram-se com um bando de jovens que em condições normais não hesitaria em roubar-lhes as carteiras. Contudo, ao ver Manuel Rui, o líder do gang apontou: “Ei! Aquele ali é o da Onda [o romance Quem me dera ser Onda].” Resultado: o que era para ser um assalto transformou-se numa guarda de honra.
Este tipo de efeito da literatura sobre a realidade quotidiana (e vice-versa) foi o grande tema que atravessou as várias mesas-redondas que voltaram a levar muito público ao Auditório Municipal da Póvoa de Varzim. Por exemplo, na sessão intitulada “A Literatura Rasga a Realidade”, moderada por Michael Kegler, o brasileiro João Paulo Cuenca contou como o seu romance sobre Copacabana, Corpo Presente, “virou um atractor de mulheres loucas”, que o assediam e por vezes até o perseguem. Se os outros escritores presentes — Eduardo Halfon (Guatemala), Ignacio del Valle (Espanha) e os portugueses Pedro Teixeira Neves e valter hugo mãe — não tinham intromissões tão explícitas nas suas vidas privadas para contar, o certo é que todos viram na fronteira entre a literatura e o real um “rasgão” que dá passagem e permite contaminações nos dois sentidos.
Na mesa de Quiroga, a rua também foi vista como metáfora dos vários caminhos que podem levar à ficção, vista no contexto das suas obras pelo peruano Oscar Málaga Gallegos, pela moçambicana Paulina Chiziane, pela espanhola Susana Fortes, pela luso-argentina Cristina Norton e por Júlio Moreira.
Quanto à sessão da manhã, sobre “Poesia: a bem dita e a mal dita”, juntou Filipa Leal, Jorge Sousa Braga, Teresa Rita Lopes e Janet Nuñez, com moderação de Luís Machado e animada participação do público no período de perguntas e respostas.

Comentários

One Response to “Versão impressa (2)”

  1. Rui Almeida on Fevereiro 17th, 2008 11:40

    «“Ei! Aquele ali é o da Onda [o romance Quem me dera ser Onda].”»
    Sobre o q está entre parêntesis rectos: Será q eles se referiam mesmo ao romance? Será q não se referiam ao livro de poemas “A Onda”, publicado entre nós pela Centelha, em 1973 e q certamente também teve edição moçambicana?

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