Viagens ao fim da linguagem

Pullllllllllllllllllllllllll – Poesia contemporânea do Canadá
Selecção e tradução: John Havelda, Isabel Patim e Manuel Portela
Editora: Antígona
N.º de páginas: 284
ISBN: 978-972-608-211-8
Ano de publicação: 2010

Depois de ter proposto, em 2009, uma panorâmica da poesia cubana de hoje, com dez autores seleccionados por Pedro Marqués de Armas, a Antígona continua o seu trabalho de revelação mais a norte, apresentando-nos uma notável antologia com 13 poetas contemporâneos do Canadá: Robin Blaser (1925-2009), Christian Bök (1966), Dionne Brand (1953), Dennis Cooley (1944), Jeff Derksen (1958), Robert Kroetsch (1927), Karen Mac Cormack (1956), Steve McCaffery (1947), Roy Miki (1942), Erín Moure (1955), bpNichol (1944-1988), Lisa Robertson (1961) e Fred Wah (1939).
Apesar de muito diferentes uns dos outros, têm em comum, para usar as palavras dos organizadores, «uma prática de radical interpelação da linguagem e de abandono de estratégias de significação fossilizadas». Para quem acompanha de perto a poesia que se faz em Portugal, onde os experimentalismos ficaram quase todos arrumados nos anos 60 (Ernesto Melo e Castro, Alberto Pimenta e Ana Hatherly são excepções), tanta liberdade formal parecerá, das duas uma, ou fascinante, ou anacrónica. A mim, parece-me fascinante.
Em certos autores (Blaser, Cormack, bpNichol, Wah), o «desconjuntamento» da sintaxe e a torrencialidade discursiva aproximam os respectivos textos dos processos de escrita automática dos surrealistas, mas revisitados com uma espécie de consciência pós-moderna das (im)possibilidades da literatura enquanto forma de reprodução do real. Se num extremo ficam a quase intraduzível poesia visual/sonora de Cooley e as estruturas cristalinas de Bök, no outro encontramos as preocupações políticas de Brand (história da escravatura; questões de género) e Miki (memória dos japoneses injustiçados no Canadá durante a II Guerra Mundial).
Se tivesse que destacar três autores, destacaria Moure (brilhante num exercício de intertextualidade em que se apropria de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro, reinventando-o); Kroetsch, a quem pertence o mais belo poema do livro: Zoo de Winnipeg, um torvelinho de histórias cruzadas, prodígio de ritmo e imagens mentais em movimento; e McCaffery, a quem interessa descobrir «como se chega ao fim da linguagem», avançando pelo caminho uma resposta: «escrever é atingir uma superfície através dos buracos chamados coisas».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 89 da revista Ler]



Comentários

3 Responses to “Viagens ao fim da linguagem”

  1. Ignacio Vázquez on Abril 9th, 2010 12:41

    Oi, José Mario, é a primeira vez que escrevo, mas já face um ano que seguo e leio com renovado prazer o teu exhaustivo e admirável blog.
    Muito boa a noticia de esta traduccão: os poetas canadienses mais difundidos
    são os chamados ·”language poets” como bp Nicol ou Mc Caffery ou afim com o experimentalismo do Oulipo, como Bök; disponer, entao, de uma visão mais abarcadora de esa poesía era necesario.
    Em espanhol não disponemos de esa sorte.
    Espero, de a pouco, acrescentar a minha biblioteca com a metade das recomendaçaos tuas.
    Saludos,
    Ignacio

  2. vera on Abril 9th, 2010 16:00

    interessante !

  3. Art-Lover on Abril 9th, 2010 19:41

    Não és como a maioria dos críticos, sabes ler um livro e dar-lhe a sua verdadeira dimensão, guiando-nos até às obras que realmente interessam entre os muitos títulos que se publicam.

    Continua o EXCELENTE trabalho.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges